Uma túnica sem costura: a arte po-ética de Sophia

Uma túnica sem costura: a arte po-ética de Sophia

29 Outubro 2019

Escrito por FERNANDA BERNARDO

escrevo:

nesta manhã eu recomeço o mundo

Sophia de Mello Breyner, «Igrina»

 

E os poemas serão o próprio ar

‒ canto do ser inteiro e reunido

Sophia de Mello Breyner, «Igrina»

“Se um poeta diz ‘obscuro’, ‘amplo’, ‘barco’, ‘pedra’ é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas […] pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança”, escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen (*Porto, 1919 – †Lisboa, 2004) na sua “Arte Poética II”1, talvez um dos seus textos mais exuberantemente programáticos para o perscrutar da singularidade da sua assinatura po-ética: é a silhueta desta que, muito de passagem, aqui se desejaria vislumbrar.

Lembremos para tal que, do vastíssimo séquito de palavras no qual familiarmente ressoa o idioma poético de Sophia – palavras como “o perfume do orégão”, “o grito da cigarra”, “a omnipotência do sol”, “um vestido que me serve”, “a luz deserta e limpa”, o “muro branco”, “a casa”, “o relógio do tempo”, “o passar do silêncio”, “os navios do tempo”, “o anel da noite”, “a navegação do silêncio”, “noites de espanto e de prodígio”, “silêncio de luas”, “vestido de exílio”, o “perfume da tília e do orégão”, a “respiração da noite”, a “sombra dos muros”, a “aparição dos rostos”, o “sorriso sem costura”, … –, lembremos para tal, dizíamos, que, do vastíssimo séquito de palavras no qual familiarmente ressoa o idioma poético de Sophia, se destaca talvez a palavra “inteireza” – uma palavra de recorte meta-ético-ontológico que talha a “túnica sem costura” que a obra poética de Sophia se quis: a busca da “inteireza” conjuga-se nela com a obstinada exigência da “inteireza”, do ser-se inteiro, do ser-se sem costuras. Não raras vezes do ser-se uno e do estar-se reunido.

Esta foi sua empresa: reencontrar o limpo
Do dia primordial. Reencontrar a inteireza
Reencontrar o acordo livre e justo
E recomeçar cada coisa a partir do princípio.
(O Nome das coisas, OP III, p. 226)

Num certo eco do “Para ser grande, sê inteiro”, de Ricardo Reis/Fernando Pessoa, esta busca e esta exigência meta-ético-ontológica da “inteireza” definem para Sophia a arte poética como uma singular arte da sobre-vivência pessoal e da resistência, bem como da reinvenção da vida e da incessante reconstrução do mundo: a arte de quem a par e passo se re-inventa na sua própria re-invenção atenta e sensível da “ordem intacta do mundo” (Geografia, OP III, p. 67): segundo Sophia, escreve-se tanto para conquistar como para reafirmar a “inteireza” do seu próprio ser e para, em cada nova manhã, re-começar o mundo:

[…] nenhum poeta escreve para fazer uma obra e nenhum poeta escreve para conquistar uma vida imortal, mas sim para conquistar a inteireza e a verdade da sua vida actual.2
E sobre a areia sobre a cal e sobre a pedra escrevo: nesta manhã eu recomeço o mundo (ibidem, p. 11)

Como o grito de Electra no rumor do estio, a poesia de Sophia vive da sua “insónia das coisas” (ibidem, p. 64) – é sinónimo de ar – “E os poemas serão o próprio ar / – Canto do ser inteiro e reunido -” (ibidem, p. 58), sinónimo de respiração e, sabemos, a respiração é sinónimo de vida: o que está no pulmão está também na ponta da língua e na seda das palavras – e é a recusa do artifício, do formalismo, da “maquinação de fazedores”, do “poiein”, do estetismo: para Sophia a poesia é a voz nua de um “eu” atento e sensível que, falando embora a partir do ângulo da sua existência pessoal, incessantemente recomeça a busca do “estar-ser-inteiro inicial das coisas” (Dual, OP III, p. 155).

A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. […] Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.3

Na sua eternamente recomeçada aliança com as coisas, a arte po-ética de Sophia quer-se a respiração do seu tempo e da sua vida:

Estes poemas caminhavam comigo e com a brisa // Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro // E foram parte do tempo respirado. (Geografia, OP III, p. 79)
E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o “obstinado rigor” do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si.
E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida. (“Arte poética II”, OP III, p. 96).

Assombrada de casas, pela melancolia da sua memória e da sua procura – “Em redor da luz / Com sombras e brancos / A casa se procura” (Geografia, OP III, p. 36); “A antiga casa […] Permanece presente como um reino/ E atravessa meus sonhos como um rio” (ibidem, p. 53); “A noite reúne a casa e o seu silêncio/ Desde o alicerce desde o fundamento” (ibidem, p. 37); “A casa que eu amei foi destroçada/ A morte caminha no sossego do jardim / A vida sussurrada na folhagem/ Subitamente quebrou-se não é minha” (Dual, OP III, p. 101) –, e povoada de ilhas, do “silêncio das luas e do trigo”, da “omnipotência do sol” e do “grito da cigarra”, é a este tempo de vigília insone, de fome de justiça e de re-nascença que Sophia confessa sempre teimosamente regressar para, no silabário vibrátil de cada poema, “recomeçar o mundo”: a arte de Sophia, segundo Sophia, é a arte de dar forma ao mundo.

É esse o tempo a que regresso no perfume do orégão, no grito da cigarra, na omnipotência do sol. Os meus passos escutam o chão enquanto a alegria do encontro me desaltera e sacia. O meu reino é meu como um vestido que me serve.
(Geografia, OP III., p. 11)
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo.
(O nome das coisas, OP III, p. 238)
Clara Não

Notemo-lo: o “tempo de areia fina” (Geografia, OP III, p. 69) a que a poeta diz sempre regressar é o tempo da renovação da sua aliança com o mundo e com a criação – a poeta não se quer uma imitadora da natureza. Nem recria um mundo ideal a partir da “treva interior por que somos habitados” (Dual, OP III, p. 155). Imita antes a divina genialidade do “acto criador” na esperança de assim reinventar a verdadeira vida na “fidelidade integral à responsabilidade de estar no mundo”, neste mundo, como Sophia o diz do fulgor irado da poética de Jorge de Sena que, num gesto gémeo do seu, também soube escrever, em «Os trabalhos e os dias»: “e só eu sei porque principiei a escrever no princípio do mundo/ E desenhei uma rena para a caçar melhor”.

Não surpreenderá assim que, em Sophia, o tempo e os olhos de uma infância que se demoram na intempestividade da sua vocação do eterno, aqui, se confundam com o tempo e os olhos da própria poesia: a escrita poética, diz Sophia, “exige solidões e desertos/ E coisas que se vêem como quem vê outra coisa.” (Ilhas, OP III, p. 328). Assediada de infância e de fome de justiça, a poesia de Sophia demora-se nestas paragens – mora, aliás, nesta demora. É a “túnica sem costura” que resta da celebração da vigília de uma vida de combate à injustiça, à dispersão e à divisão:

Porém a poesia permanece.
Como se a divisão não tivesse acontecido
Permanece mesmo muito depois de varrido
O sussurro de tílias junto à casa de infância
(Ibidem, p. 311)
E isto me faz pensar a que ponto a arte é como fome de justiça gritando o seu testemunho contra o desconcerto do mundo onde nos quebramos. (Correspondência, p. 95).
Nem deixes que o poema te adie ou divida: mas que seja
a verdade do teu inteiro estar terrestre.
(O nome das Coisas, OP III, p. 206).

E da paixão pela luz da infância da vida à da infância da nossa civilização europeia que, para Sophia, fala grego não vai senão um pequeno passo – o passo que Sophia confessa ter dado no encantamento da plenitude do encontro consigo, com o mundo e com a bênção da própria poesia: a Grécia simbolizará para Sophia o “primeiro dia da criação” – “o primeiro dia inteiro e puro”.

Uma carta datada de Maio de 1964, endereçada a Jorge de Sena, dá conta do emaravilhamento de Sophia pela Grécia – “o país da imanência sem mácula/ O reino que te reúne” (Arquipélago, OP III, p. 143):

Não tento descrever-lhe a Grécia nem tento dizer-lhe o que foi ali a minha total felicidade. Foi como se eu me despedisse de todos os meus desencontros, todas as minhas feridas e acordasse no primeiro dia da criação num lugar desde sempre pressentido. Sobre a Grécia só Homero me tinha dito a verdade: mas não toda. O primeiro prodígio do mundo grego está na Natureza: no ar, na luz, no som, na água. […] De uma certa maneira encontrei na Grécia a minha própria poesia “o primeiro dia inteiro e puro – banhando os horizontes de louvor. […] Ali encontrei as coisas todas inteiras e presentes na sua unidade. (Correspondência, pp. 65-67).

A paixão pela Grécia está omnipresente na obra de Sophia – transparece: 1.) no classicismo formal e na luminosa simplicidade da sua linguagem cantando a sua infinitamente recomeçada aliança com o mundo – aliança que, no eco da etimologia, ela nomeará mesmo religiosa, e que não passa de uma outra formulação da sua relação meta-ético-ontológica com o mundo e as coisas do mundo; 2.) nos poemas que entoam motivos helénicos: nomes, figuras, lugares e cenas históricas e/ou mitológicas: como “Electra”, cujo grito é dito “a insónia das coisas/ […] Para que a justiça dos deuses seja convocada” (Geografia, OP III, p. 64); como Hydra “onde tudo é divino como convém ao real” (Dual, OP III, p. 146); como o “golfo de Corinto “ onde, “sem a menor ruga de tempo/, A respiração dos deuses é visível”; como Sunion onde “Na nudez da luz (cujo exterior é interior)/ Na nudez do vento (que a si próprio se rodeia) […] Uma a uma são ditas as colunas de Sunion”; como “Eurídice” e “Apolo Muságeta” ‒ “Em ti eu celebrei minha união com a terra” (ibidem, p. 104); como “Ítaca”, “Kouros, o Minotauro, Delphica, Acaia: “Aqui despi meu vestido de exílio/ E sacudi de meus passos a poeira do desencontro” (Geografia, OP III, p. 61).

A paixão helénica de Sophia testemunha-se igualmente nos poemas que cantam o ideal clássico da “inteireza” ‒ a harmonia, a reunião, a unidade, a justiça e a plenitude de ser. Admirativo, o primeiro verso do poema “Catarina Eufémia” lembrará que “O primeiro tema da reflexão grega é a justiça” (Dual, OP III, p. 164). Mas, porque jamais a justiça é o direito, lúcido, o último verso deste mesmo poema recortará o suspiro da própria justiça: “Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste/ E a busca da justiça continua” (Dual, OP III, p. 164).

É este ideal meta-ético-ontológico de “inteireza” ‒ caro ao humanismo arqui-ético da poeta, que tece a “túnica sem costura” ‒ que Sophia sonha e reivindica para a sua obra. Um ideal que não se pretendeu, porém, um idealismo. Nem foi um sonho sem frutos. Foi antes um compromisso de cada instante pela dignidade da vida, pela liberdade e pela justiça num tempo em que, no dizer da própria poeta, o próprio ar tinha grades – o poema é, enquanto poema, “a pequena luz/ que na escuridão resiste” (Correspondência, p. 154). Por outras palavras, o poema é, em si próprio, um “acto de resistência” – um acto de resistência “não apenas no sentido corrente e directamente político da palavra”, como Sophia o precisa a propósito da poética de Jorge de Sena, mas no sentido em que é “uma poesia que resiste a tudo quanto deforma ou inverte ou desfigura a vida humana” (Correspondência, pp. 152-153).

É a insónia desta resistência – sintoma de um singular apolitismo hiper-político no sonho e na exigência de uma outra concepção e de uma outra prática da política (polis) – que talha a fina aristocracia do idioma po-ético de Sophia: o idioma da busca obstinada de um modo de “ser inteiro e reunido” na sua íntima e transfigurante “relação com o universo”.

Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema fala não de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo de janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.
É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. (Arte Poética II, OP III, p. 95)

NOTA: A autora escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

Notas

  1. Andresen, S. M. B. (1991). Obra Poética III. Lisboa: Editorial Caminho, p. 96.
  2. Andresen, S. M. B. e Sena, J. (2006). “Texto homenagem de Sophia Mello Breyner a Jorge de Sena” in Correspondência, 1959-1978. Lisboa: Guerra e Paz, p. 152. Itálico nosso.
  3. “Arte Poética II”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, publicado pela primeira vez na revista Távola Redonda a 21 de Janeiro de 1963 e posteriormente publicada com alterações em «Geografia» (1967).
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