Author: pontesdevista1

CADAVRE-EXQUIS: Homenagem à poesia do acaso

29 Outubro 2019

Escrito por ALUNOS DE ESTÉTICA E LINGUAGEM, FLUP 2018/2019

Produção coletiva, a 26 de fevereiro de 2019, na aula de Estética e Linguagem, Faculdade de Letras da Universidade do Porto (2018/2019).

Somos construídos através da desconstrução do nosso silêncio
Para além dos campos verdes
Palavras perdidas são ideias vendidas
E mesmo assim eu não soube nada
“Não é sobre vencer. É sobre não desistir”.
O girassol tomba para a luz
A poesia começa em mim e em ti
O manifesto surrealista foi publicado em 1924
A pastilha elástica mais antiga tem mais de 5 mil anos
E se eu partir o telemóvel a tentar ligar para o céu
Os momentos difíceis acabam por se tornar nos mais memoráveis…
Não sei como ou por que razão
Somos todos feitos de tudo e de nada. Diferentes e iguais
Adoro bolos
Isto não é um papel
E se este dia fosse lido, talvez, só
Talvez, se mudasse toda a vida.


* Assinam este poema Marta Sofia Almeida, Flora Pimenta, Bruna Ribeiro, Diogo Vale Santos, Adna Matveichuk, Catarina Gomes, Nicole Soraia, Simões Neiva, Inês Botelho, Alice Amorim, Ricardo Oliveira, Beatriz Santos, Carolina Borges, Andreia Santos, Marta Alexandra Sousa, Kristina Eder, David Lima.
* Imagem de capa: Clem Onojeghuo
Conteúdos Relacionados
Uma imagem de Sophia VARIAÇÕES 29 Outubro 2019 Escrito por NUNO JÚDICE Ó noite, flor
“De olhos bem abertos”: breve evocação de Sophia de Mello Breyner Andresen GRANDE ENTREVISTA 29
Sophia: O que há num nome EDITORIAL 29 Outubro 2019 Escrito por MARIA LUÍSA MALATO
Dignidade na palavra e na sabedoria LEITURAS 29 Outubro 2019 Escrito por GUILHERME D'OLIVEIRA MARTINS
Sophia e a dança LEITURAS 29 Outubro 2019 Escrito por MARIA JOSÉ MAGALHÃES DA SILVA

Ut pictura poesis: mil palavras, mil imagens, Mil-homens

29 Outubro 2019

Escrito por SARA AUGUSTO

A relação interartística, entre poesia e fotografia, que seria de esperar da parte de quem lida com os dois domínios como coisa própria, não se apresenta de forma continuada.

No breve livro de poesia com o vasto título de «Universália», diz-se: “Estariam secas as fontes/ destes versos/ não fora os medos/ que sobrevivem, tão perversos,/ eternos bronzes/ da estatuária dos degredos (1919, p. 34). Os versos, cortados e incisivos, apontam uma das razões mais fundas para o exercício poético de António Duarte Mil-Homens: a poesia como movimento íntimo de liberdade, sentido como urgente a partir das contingências quotidianas. Neste contexto, o sentido do “medo” atinge uma dimensão ampla, manifestando, sobretudo, a condição tão frágil, mas também tão efémera, da vida humana.

Fotógrafo, nascido em 1949, a 9 de outubro, completando 70 anos no corrente ano e cumprindo 45 anos de dedicação à fotografia, António Duarte Mil-Homens tem publicados dois livros de poesia no século XXI, apesar de uma prática poética já mais alongada no tempo. O primeiro livro, uma edição de autor, «Vida ou Morte duma Esperança» anunciada, data de 2010, e o livro mais recente, «Universália», foi publicado já em 2019, sendo que os dois livros participam de uma temática, de um fôlego e de uma construção poética semelhantes. Sobre o primeiro livro, já escreveu José Carlos Seabra Pereira, na sua história da literatura escrita em Macau, «O Delta Literário de Macau», onde observou a inventividade da poesia de Mil-Homens e o seu “desalinho”, no sentido em que rompe com esquemas estabelecidos, com a rotina e a acomodação, mostrando um sujeito poético revolto e disruptivo (2015, p. 484), fundamente envolvido com o contexto e o lugar que nele ocupa.

A relação interartística, entre poesia e fotografia, que seria de esperar da parte de quem lida com os dois domínios como coisa própria, não se apresenta de forma continuada. A sua presença mais óbvia diz respeito à fotografia que compõe a capa do primeiro livro – sendo que há mais três do mesmo contexto ao longo das páginas- e que remete para uma das alegorias de maior solidez literária e pictórica da cultura ocidental. A fotografia, captada por Mil-Homens no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, representa uma escultura em mármore de figuração antiga: um pequeno Cupido, pensativo, posto em descanso, apoiado numa caveira, tendo ainda a seu lado uma ampulheta. Adequada ao espaço, lembrando que pulvis es et in pulverem reverteris, tem como modelo a linhagem antiga de gravuras como a de H. Goltzius (1594), guardada no Metropolitan Museum of Art, legendada com o esperado “Quis evadet?”, e, ao modo emblemático, acompanhada por quatro versos onde se compara a vaidade da vida humana com as bolas de sabão que se desfazem e com as flores que murcham e perdem a sua beleza. Nos elementos compositivos da escultura fotografada por Mil-Homens, entendida como memento mori e como vanitas, fica o aviso para a falta de substância da vaidade e do amor próprio, fundados na efemeridade da vida humana e das coisas do mundo, alegoria que teve o seu máximo esplendor no tecido artístico barroco. Tendo em conta a sugestão tão direta da capa, seria de esperar que os poemas do livro desenvolvessem esta alegoria sobre a efemeridade da vida, medida pelo rigor da ampulheta? Desenvolvem, mas não da forma barroca que a fotografia sugere.

Clara Não

Com efeito, para além da imagem fotográfica, que pode servir de mote ao título, a poesia de Mil-Homens é claramente metafórica. Os versos desenvolvem-se a partir de imagens, relacionadas com a reflexão sobre a condição humana, entendendo a vida como viagem, mas também com a construção poética e a consciência que o sujeito tem de si próprio. No seu “Auto-retrato”, primeiro poema do livro, desenha-se um sujeito poético dividido entre o ceticismo pragmático e eclético e o sonho louco, feito de espanto e de esperança nesse “futuro afiado” (2010, p. 11). Por isso, à “Morte”, que que irrompe pela rua perguntando pelos nomes da lista que leva na mão, imagem tão antiga quando o quadro compositivo da capa, mandou-a para norte e depois rumou para sul, “procurando o Sol” (2010, p. 12). Apesar da constatação da paisagem como “labirinto pálido”, feita de pranto, vigília, recusado o encanto, que não é mais que “mistificação inglória”, o sujeito poético ultrapassa essa ilusão solitária pela constante necessidade de se reinventar, “almejando atingir a meta” (2010, p. 24), sempre na “porfia duma miragem” (2010, p. 25). Entendida assim a vida, como prática diária, dela faz intrinsecamente parte o exercício poético. Eclético, o poema, como a própria vida, às “ideias vadias” que lhe “saltam às canelas”, que insistem em invadir o espaço poético, não resta ao sujeito outra solução que não seja “aceitá-las como são, / deixá-las morder a pena” (2010, p. 19). Acolhidas no poema, tornam-se expressão essencial do infinito, figuradas pela dor e pelo sabor intenso do sal (2010, p 33).

No que diz ainda respeito às imagens, um dos poemas que mais interessa ter em conta começa com o verso “Pastores de imaginários rebanhos” (2010, p. 38). O disfarce pastoril, como é entendido na literatura bucólica maneirista, impõe-se como intertexto, sendo que a alegoria é revelada desde o primeiro verso, colocando imediatamente os pastores e os rebanhos no campo da ficção. Os dois universos, o sentido literal e o sentido figurado, desenvolvem-se em contraponto – “apascentamos nossas dores”, “fazemos dos amores anhos” -, fazendo equivaler “lobos” e “sonhos”, feras que os pastores devem afugentar para defender o gado, acendendo fogueiras, onde aconchegam o serão. O sujeito poético, a partir de uma voz coletiva, sente da mesma forma que o pastor que guarda o rebanho, tendendo para uma rotina, mesmo que seja de dor. E da mesma forma que a harmonia do universo bucólico é atingida pela intensidade do sentimento amoroso, também o sujeito se afasta dos sonhos que ameaçam a mediania do quotidiano, apesar de este não ser mais do que “fogueira do nosso inferno”.

O primeiro livro de poesia de Mil-Homens termina com uma resposta à opção proposta no título do livro: nem vida nem morte. Depois de em poema anterior se ter dito que “a esperança é o que fazemos dela” (2010, p. 94), o poema “Bordejando uma iluminura” (2010, p. 106) apresenta no primeiro verso uma interpretação livre do horaciano ut pictura poesis. A escrita poética, intensa e impulsiva, é a expressão do engano e do desengano, em conjunto envolvendo o mundo e o sujeito. Essa poesia “à desgarrada”, em torrente e em desafio, é uma forma de gravar “nas almas bem fundo”, o “adiar da esperança”, figurado nesse cupido adormecido, entre a indiferença desiludida e a mais profunda inquietação sobre o tempo que se escoa pela ampulheta e o destino certo que se anuncia na caveira.

O exercício poético em António Duarte Mil-Homens surge como possibilidade de superação dos medos “tão perversos, eternos bronzes”, como escrevi no início do texto, assumindo uma atitude física que se prolongará no livro «Universália»: “degluto o medo” (2019, p. 5). Mas é, sobretudo, a expressão conjugada de uma lucidez desencantada com o encanto do poema como espaço de força e reflexão.

Bibliografia
Mil-Homens, A.D. (2010). Vida ou Morte duma Esperança Anunciada. Macau: Edição do Autor.
— (2019). Universália. Coimbra: Temas Originais.
Pereira, J. C. S. (2015). O Delta Literário de Macau. Macau: Instituto Politécnico de Macau.
Conteúdos Relacionados
Uma imagem de Sophia VARIAÇÕES 29 Outubro 2019 Escrito por NUNO JÚDICE Ó noite, flor
“De olhos bem abertos”: breve evocação de Sophia de Mello Breyner Andresen GRANDE ENTREVISTA 29
Sophia: O que há num nome EDITORIAL 29 Outubro 2019 Escrito por MARIA LUÍSA MALATO
Dignidade na palavra e na sabedoria LEITURAS 29 Outubro 2019 Escrito por GUILHERME D'OLIVEIRA MARTINS
Sophia e a dança LEITURAS 29 Outubro 2019 Escrito por MARIA JOSÉ MAGALHÃES DA SILVA

Uma imagem de Sophia

29 Outubro 2019

Escrito por NUNO JÚDICE

Ó noite, flor acesa, quem te colhe?

Sophia

Cantaste a luz e o mar, o sal
das águas e o sal da vida, o terror
do mais fundo e a exaltação
do mais alto. Mas nessa janela
de onde vias a Grécia e o infinito,
não quando olhavas para lá
do vidro, mas quando guiavas
os versos na página, num exercício
de timoneira da poesia, a música
vinha ao teu encontro. E
afastavas de ti o abutre e a cobra,
ouvindo a lira do vento e o transparente
rumor dos cedros. Assim colheste
a flor em chama da noite
e acendeste, com o seu fogo,
a pura essência do mundo.

Clara Não
Conteúdos Relacionados
CADAVRE-EXQUIS: Homenagem à poesia do acaso VARIAÇÕES 29 Outubro 2019 Escrito por ALUNOS DE ESTÉTICA
“De olhos bem abertos”: breve evocação de Sophia de Mello Breyner Andresen GRANDE ENTREVISTA 29
Sophia: O que há num nome EDITORIAL 29 Outubro 2019 Escrito por MARIA LUÍSA MALATO
Dignidade na palavra e na sabedoria LEITURAS 29 Outubro 2019 Escrito por GUILHERME D'OLIVEIRA MARTINS
Sophia e a dança LEITURAS 29 Outubro 2019 Escrito por MARIA JOSÉ MAGALHÃES DA SILVA

“De olhos bem abertos”: breve evocação de Sophia de Mello Breyner Andresen

29 Outubro 2019

Conduzida por PEDRO BARROS a MIGUEL SOUSA TAVARES,
intervencionada por MARIA LUÍSA MALATO

Transcrição de partes da entrevista feita a Miguel Sousa Tavares, a propósito do lançamento de «Cebola Crua Com Sal e Broa: da infância para o mundo» (2018) em Amarante (23 de Fevereiro de 2019).

Intervenientes: Miguel Sousa Tavares (MST), Pedro Barros (PB), Maria Manuel Alvito (MMA).

Olhos abertos do navegador
Mudam aqui a luz a sombra a cor
E também faces e gestos que modulam
Segundo elaboradas estranhezas
Outro o recorte da vaga e do penedo
Caudas de dragões seguem os barcos

Sophia de Mello Breyner, Navegações (Obra Poética, 2011, p. 691)

PB: Era absolutamente essencial para nós, no Centro de Estudos Amarantinos, que pudéssemos fazer esta apresentação. O Miguel estudou, na primeira classe, em Amarante, em Jazente. Está ligado a nós, eu diria até que fala de nós, fala da nossa terra, fala dos locais que conhecemos e, portanto, era absolutamente essencial podermos também reconhecer que ele é um dos nossos. […] Honrou-nos com um dos dezasseis capítulos desta obra; o primeiro é dedicado a Amarante e à sua vivência no Carvalhal e em Jazente com os amigos. […]

Tudo começou a 25 de junho de 1950, quando o Miguel nasceu – foi num domingo. […] Há neste dia, 25 de junho, três acontecimentos que são curiosos e que […] eu gostaria de partilhar com todos. Neste dia, começou a Guerra da Coreia. Aquela tensão na península da Coreia não é de agora e, neste dia, começou a Guerra da Coreia, que terminaria a 27 de julho de 1953. Também neste dia, tivemos um acontecimento dramático para os nossos irmãos do Brasil: a final do Campeonato do Mundo de futebol, uma final que estava ganha. […] 200.000 pessoas, todas preparadas para a festa do Brasil e [o Uruguai dá a volta e vence] […]. E, finalmente, tivemos o 9.º Circuito de Vila Real, o circuito automóvel de Vila Real. O Miguel tem também, como sabem, uma paixão por automóveis; portanto, pelo futebol e por automóveis. Provavelmente, o tio Manuel Alvito terá estado neste Circuito de Vila Real, o primeiro a ser ganho por um piloto estrangeiro. […] O Miguel veio para Amarante [por causa] da madrinha, mãe da Manuela [Alvito], D. Maria dos Prazeres, mais conhecida por D. Maria do Carvalhal. O tio Manuel [Alvito], [seu] marido, foi buscá-lo ao comboio e o Miguel retrata-o no livro, [falando] precisamente da empatia que se gerou entre os dois, de imediato, e como ele foi uma companhia permanente; de tal forma que, mais à frente, D. Manuel Alvito pensou em adotar o Miguel. Na família eram já cinco irmãos, o Xavier já tinha chegado, e, portanto, punha‑se a hipótese de D. Manuel querer adotá-lo. D. Manuel Alvito […] foi presidente do Amarante Futebol Clube na época de 44/45: o Amarante tinha deixado de ter atividade em [19]42 e, portanto, ele retomou a atividade do clube. D. Manuel, pela paixão que tinha pelos automóveis, foi ele também um corredor […]. O Miguel conta no livro que foi com D. Manuel ao Circuito da Boavista, ver o Grande Prémio de Portugal, e recorda-se perfeitamente dessa ocasião. […] Penso que, de alguma forma, [esta breve informação] traça aquilo que é a família de Amarante que o Miguel partilhou, que aqui ficou e permaneceu pela vida inteira. O Miguel continuou aqui a vir, mesmo não morando em Amarante. […]

(dirigindo-se a Maria Manuel Alvito, no público)

Pedro Barros (esq.) e Miguel Sousa Tavares (dir.)

PB: O Miguel passou a ser um irmão?

MMA: Passou, completamente. O único, aliás, que eu teria e tive […]. Não foi [adotado], porque o pai do Miguel não deixou, pura e simplesmente (risos).

PB: Mas continuaram a ter uma relação muito próxima, […] a fazer férias juntos, na Granja, durante muitos anos…

MMA: Sim, sim, certamente.

PB: O que é que leva a que ainda hoje continuem a ser irmãos?

MMA: A amizade que temos um pelo outro. Desde sempre.

PB: Se eu lhe pedisse que explicasse (às pessoas que não conhecem o Miguel)… Porque existe, por aí, uma certa imagem do Miguel, conflituoso…

MMA: Conflituoso, não. Frontal, verdadeiro, direto, corajoso.

PB: Como definiria [então] o Miguel?

MMA: Inteligente, dinâmico, corajoso, muito frontal.

PB: Isto tem alguma coisa a ver com a família? Com o pai, nomeadamente…

MMA: O pai do Miguel era um homem fantástico, de uma inteligência rara, com um interesse extraordinário. Ouvi-lo falar era um deleite para o espírito. Era um homem extraordinário. Assim como a mãe. Portanto, ele tem bem a quem sair.

PB: Acha que ele merece que o tratemos “como um dos nossos”?

MMA: Ele merece, evidentemente que merece. Penso que ele gostará… Nós gostaremos, com certeza. Muito.

PB: O Miguel quer comentar? […]

MST: Não tenho muito a comentar. Sinto-me um pouco embaraçado. Faz-me lembrar o primeiro dia que cheguei a Amarante e ao Carvalhal. Dormi no quarto onde ainda hoje durmo quando lá vou. E quando abri a janela de manhã, era como se estivesse noutro planeta. Nunca tinha saído de Lisboa e estava numa casa estranha, no meio de gente estranha. Abri a janela. E estava uma assembleia de putos, como eu, à espera que eu acordasse, porque lhes tinham dito que tinha chegado outro puto de Lisboa muito estranho. Abri a janela e estavam todos a olhar. E eu também fiquei estarrecido: não sabia o que havia de fazer. E mostrei-lhes uma bola de futebol, o meu presente, que me tinham dado na véspera, em Lisboa, [porque] tinha feito 6 anos. Os tipos disseram “Ah!”. E então aquilo parecia aquele filme, «2001: Odisseia no espaço» […] Atirei-lhes a bola e fomos jogar futebol. Foi o meu primeiro contacto com os amarantinos: temos alguma coisa em comum […].

PB: Da Escola de Jazente, onde o Miguel andou, onde aceitou praça em [19]56 [se guarda este documento]: “Miguel Gonçalo Andresen de Sousa Tavares, nascido a 25 do mês de junho de 1950, na freguesia de Santo Ildefonso, concelho do Porto, distrito do Porto, residente no Lugar do Carvalhal, freguesia de Jazente, concelho de Amarante, filho de Francisco José de Sousa Tavares e D. Sophia de Mello Breyner Andresen, é seu encarregado de educação D. Manuel Alvito, casado, proprietário, residente no Carvalhal, Jazente… “ […]. O Miguel retrata [neste seu livro] a condição dos seus colegas: era o único que ia de botas para a escola, os outros iam quase todos descalços. Isto era o país que nós tínhamos nessa época, um país miserável. Um país onde as pessoas se alimentavam mal, onde a condição da sobrevivência era a luta diária. Estamos longe disso?

MST: Felizmente estamos. Acho que é difícil explicar às novas gerações até que ponto Portugal era um país miserável, subdesenvolvido em todos os aspetos, culturalmente… Em tudo… É muito difícil de explicar. Acho que é um abismo aquilo que nós mudámos, do ponto de vista social, económico e mesmo cultural – não tem nada que ver, é completamente diferente. Nem vale a pena elaborar muito sobre isso.

PB: Este livro tem um título diferente. Admite que os seus amigos e as suas amigas em Lisboa tenham ficado um pouco chocados com “cebola crua, com sal”?

MST: Chocar amigos e amigas nunca foi coisa que me preocupasse muito. Ou leitores. Agora, o título, por acaso, foi difícil de arrancar. E eu sou um bocado paranoico com títulos, porque custa-me muito começar a escrever sem já ter um. Este saiu quando já o livro estava, praticamente, na gráfica. Já tinha experimentado uns 30 ou 40 que não resultavam e este saiu, de repente, como se fosse uma revelação. Estava lá e fazia todo o sentido, porque eu acho que, tal como digo na contracapa, não é impunemente que uma pessoa cresce, num momento decisivo da vida, a comer cebola crua com sal e broa… Isso, de certa forma, é uma coisa formativa na vida de uma pessoa. […]

PB: A certa altura, este livro esteve para se chamar «Olhar»?

MST: Não. Esteve para se chamar «De olhos bem abertos».

[…] no sol dos meus pátios vazios
A fúria reina intacta
E penetra comigo no interior do mar
Porque pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos
E reconhecem o abismo pedra a pedra anémona a anémona flor a flor

Sophia de Mello Breyner, Dual (Obra Poética, 2011, p. 578)

PB: É que a mãe do Miguel, numa citação que faz, a certa altura dizia que “viajar é olhar”. Isto é uma viagem: é uma viagem aos tempos da sua juventude, aos tempos que viveu a seguir e, portanto, pensei que fosse um bocado nesta linha de “viajar é olhar”.

Miguel Sousa Tavares

MST: Não, não, não. Isso seria se fosse um livro de viagens, e eu já escrevi alguns, mas não. «De olhos bem abertos» era no sentido de que eu tive – e tenho, continuo a ter – […] o privilégio de fazer jornalismo toda a minha vida e o jornalista é aquele que testemunha aquilo que vê; o olhar é a minha câmara fotográfica privada. […] A certa altura, cansei-me das fotografias e percebi que o olhar era o mais importante de tudo. E essa frase da minha mãe, que foi dita quando estávamos os dois a viajar em Roma… Aqui entre nós, ela estava sentada numa esplanada, a beber chá (ela bebia litros de chá por dia) e eu já estava farto de estar ali, queria ir dar uma volta e ela queria ficar; preguiçosamente, continuar. E disse: “Miguel, viajar é olhar”. Pronto, ok. Mas a frase fazia sentido: de facto, é olhar. Não quer dizer que se fique sentado o dia inteiro a olhar para a mesma coisa, para a mesma praça, mas olhar é muito importante. O olhar é mais do que olhar para as coisas. É olhar para aquilo que vemos, para as pessoas, para a cara das pessoas, para os sinais, para aquilo que identifica. Esse olhar, eu apurei-o muito enquanto jornalista e utilizo-o também muito enquanto escritor […].

PB: O Miguel, neste livro de dezasseis capítulos, dedica, como já disse, um capítulo a Amarante e, depois, ao reencontro com a grande cidade, com Lisboa, de onde tinha vindo. No Colégio São João de Brito, onde a experiência foi outro choque…

MST: … um choque mau.

PB: Mau. […] Depois o Miguel faz Direito [na Universidade de Lisboa] e vive aquilo que foi o final do Estado Novo, o grande anseio [pela] revolução, [pela] mudança, [pela] liberdade. A palavra “liberdade” está significativamente escrita várias vezes no livro: é em torno da palavra “liberdade” que a escrita do Miguel anda muito. Em casa, o ambiente era de oposição ao regime, de luta: o pai, várias vezes preso, perseguido pela PIDE. Por casa do Miguel, passava aquilo que era a intelectualidade do tempo, não só portuguesa, mas também estrangeira. Como era esse ambiente em casa?

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner, Mar Novo (Obra Poética, 2011, p. 341)

MST: Era desafiador, era desagregador, ao mesmo tempo. Para uma criança… Todas as crianças precisam e gostam de uma ordem… Nesse sentido, aquela casa era uma desordem. Lembro-me que, quando o meu pai morreu, o Manuel Alegre, que era muito amigo dele e da minha mãe, escreveu uma coisa muito bonita, que terminava dizendo: “Espero que o Francisco continue, lá em em cima, a desorganizar a ordem estabelecida das coisas”. E era um bocado isso, quer dizer, o meu pai era um desestabilizador da ordem das coisas. Ele, por exemplo, tinha um complexo que eu chamava de “complexo de Lavradio”: os Lavradios eram uns aristocratas do século XVIII que se tornaram célebres por andarem sempre à pancada com a polícia. O meu pai não podia ver uma farda, era uma coisa que o punha fora dele, não sei porquê. Via um polícia e parecia que logo se queria atirar a ele. Tinha uma rejeição inata pela autoridade (que me passou bastante, devo dizer) e que era uma coisa desestabilizadora. E não arranjou nada melhor do que enfiar‑me num colégio de Jesuítas, onde era tudo baseado na autoridade, ainda por cima na autoridade não explicada. E depois admirava-se que eu tivesse permanentemente de castigo e acabasse por ser expulso, por ter dado uma estalada num padre. Foi um murro, não foi bem uma estalada. Havia essa desordem, mas ao mesmo tempo era uma desordem criativa, porque… Eu era novo demais na altura e, enquanto fui novo demais, a desordem marcava mais do que a criatividade… Só depois, a partir de certa altura, começou a marcar-me mais o privilégio de perceber que tinha coisas que os outros não tinham. É que, de facto, passavam lá por casa pessoas extraordinárias. Lembro-me do João Vasconcelos, o João Pascoaes, que era pintor; lembro-me de uma sessão lá em casa, em que estava o João Pascoaes e estavam também vários outros pintores que ficaram a pintar, até às 5 da manhã, tudo o que havia, todos os papéis. Uns estavam bêbedos, outros ainda não, outros viriam a estar. À saída, já não tinham mais papéis onde pintar e havia um quadro de eletricidade à saída da porta da rua que tinha uma tampa de madeira branca. O João agarrou em duas canetas de feltro, uma azul e outra encarnada, pintou um risco azul, outro encarnado, e assinou: “João Mondrian” (piada ao pintor Mondrian, que fazia uns riscos parecidos) […]. Já ninguém os conseguia tirar lá de casa, porque eles não se iam embora. Personagens dessas havia várias por lá sempre a passar: cantores, músicos, isto, aquilo, aqueloutro. O José Escada, que era um grande pintor, ia para lá vender quadros, a 50 escudos na altura. Tudo aquilo era uma desordem. Parecia um abrigo, às tantas dos sem-abrigo. Lembro‑me de aparecer a mãe do João César Monteiro, o cineasta. Ele já era maluco; a mãe ainda era mais maluca. Ela foi lá pedir dinheiro à minha mãe porque o filho tinha morrido e ela não tinha dinheiro para o funeral. O meu pai e a minha mãe, muito comovidos, deram-lhe dinheiro para ela enterrar o filho. Era pura e simplesmente mentira. Só descobriram quando um amigo dos meus pais lhes telefonou “‒ Então morreu o César, apareceu cá a mãe dele a pedir dinheiro para o funeral”… Só então se descobriu, o filho estava vivo. Era assim. Tinha [alguma] graça. O poeta Ruy Cinatti, grande amigo dos meus pais, quando voltou de Timor, não tinha onde ficar. E então ficou lá em casa. Nós achámos isto muito estranho, mas o meu pai convenceu‑nos que era o nosso irmão mais velho, que tinha voltado de Timor. Ele tinha mais trinta anos do que nós, não cabia na cabeça de ninguém, mas, pronto, era o nosso irmão de Timor. Ele, louco varrido também, contava histórias fantásticas. E as pessoas iam e vinham, malucos extraordinários. Aquilo, de facto, era extraordinário. Como eu disse, ficavam até às 5 da manhã, discutiam política, cantavam músicas, dançavam, sei lá… Acordávamos. Depois tínhamos de nos levantar às 6 e meia para ir para a escola. Íamos cheios de sono.

Acordo quando os muros são o medo,
Acordo quando o tempo cai contado,
E no meu quarto entra o arvoredo,
E se desfolha ao longo dos meus membros.

Acordo quando a aurora nas paredes
Desenha nardos brancos e macios,
Acordo quando o sono vos convence
De que sois rios.

Sophia de Mello Breyner, Coral (Obra Poética, 2011, p. 190)

PB: Depois temos os episódios da Faculdade de Direito, rebaldaria completa nessa altura.

MST: Em que sentido?

PB: A oposição ao MRPP, as lutas na Associação de Estudantes, isso tudo…

MST: Isso, sim. Mas fora isso era muito chato; a Faculdade de Direito era muito, muito chata. Era chatérrima, não tinha graça nenhuma. Os professores eram chatos. Diga-se que, em termos académicos, era uma boa escola. Hoje em dia, vejo que os maus juristas não andaram na Faculdade de Direito de Lisboa e os bons andaram. […] Mas [andar lá] era profundamente chato: marcavam faltas, tínhamos de ir para lá [marcar o ponto] e eu adormecia invariavelmente nas aulas. Tinha umas colegas simpáticas que me davam um encontrão de ombros, e eu acordava. Tínhamos alguns professores engraçados: o Marcelo era um professor engraçado, por exemplo, o Galvão Teles, etc. Mas, na maior parte, só debitavam a sebenta. Não tinha grande interesse.

PB: Depois, a seguir, temos o “dia inicial inteiro e limpo”, que foi como a sua mãe retratou o 25 de Abril: como uma grande esperança. E temos aquele episódio do seu pai, que aparece à frente dos tanques. Vinham de Santarém e não sabiam qual era o caminho até ao Quartel da Graça. O Miguel estava lá, nessa altura e depois, quando o seu pai [foi fotografado] em cima da guarita, de megafone, imagem que todos conhecemos […].

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner, O Nome das Coisas (Obra Poética, 2011, p. 618)

MST: Um episódio engraçado que as pessoas não sabem é que na coluna do Salgueiro Maia vinha o meu [futuro] cunhado, que estava a fazer tropa em Santarém. Era então namorado da minha irmã, viria a casar-se com ela. O Maia acordou a camarata, às 2 ou 3 da manhã, já não me lembro, e disse: “‒ Vamos a Lisboa derrubar o regime. Quem é que quer vir?”. Toda a gente disse “‒ Eu, eu, eu!”. Não ouviram a segunda parte, só ouviram a primeira – “Vamos a Lisboa”. E lá vão eles todos. Em Lisboa, o meu cunhado encontrou o sogro… Vinha de um torneio de bridge, ainda de noite, e depara-se com a tropa na rua. Viu tropa, fardas… (cheirou-lhe a fardas boas) e foi perguntar o que é que se passava. E o Maia disse: “‒ Vimos derrubar o regime. Ando à procura do Quartel do Carmo, que não sei onde é…”. E ele [Francisco Sousa Tavares] respondeu: “Venham atrás de mim”. […] Eu tinha mudado de casa, em Lisboa, e não tinha ainda instalado a campainha. Não havia telemóveis, na altura, e não tinha telefone sequer. E nessa noite, acordei com um amigo meu a dar murros na porta, às 6 da manhã, a anunciar-me que havia um golpe de estado. Fui para a rua, telefonei para casa da minha mãe e [ela] disse: “‒ E o seu pai está lá metido, e o Francisco (… que era o nome do meu cunhado) também. Está aqui a Sofia (… que era a minha irmã) a chorar. Vá já para lá”. E eu fui. Encontrámo-nos todos lá. A coisa parecia um chá de família, quase.

PB: Aliás, há aquela história de quando vão à aldeia, ao Alentejo…

MST: A Monsaraz, é. Costumava ir muito para lá, passar os fins de semana com aquela que viria a ser minha mulher. Mas o episódio que refere acontece dois dias depois da Revolução, quando se deu a libertação dos presos políticos em Caxias. O meu pai vai lá, porque tinha uns clientes dele que estavam presos na PIDE. Eu estava a estagiar (… ainda não tinha acabado o curso, mas já estava a estagiar com o meu pai) e fui com ele. E a minha mãe, que era então presidente da Comissão de Socorro aos Presos Políticos, foi nessa condição. Aparecemos pois os três, na televisão, a libertar os presos políticos. Uns tempos depois, quando calhou ir a Monsaraz passar um fim de semana, uma senhora dizia-me assim: “‒ Ah! Eu logo percebi que isto é coisa boa. Está lá a sua família toda metida…” (risos). Para mim, até hoje… (enfim, fica-me mal dizer isto, porque tenho três filhos…) o dia mais feliz da minha vida foi o 25 de Abril. E, se calhar, não vou viver outro assim. Foi, de facto, fantástico. Guardo ainda, em minha casa, duas cápsulas de G3 disparadas para o ar no Largo do Carmo, a certa altura, para acalmar a multidão ou por entusiasmo dos soldados. Apanhei-as e guardo-as comigo como recordação desse dia, um dia mesmo fantástico. Nesse dia, eu ia ser testemunha de um colega meu da Faculdade de Direito, que ia ser julgado no Tribunal Plenário. Eu ia ser testemunha, num julgamento, quando percebi que tudo ia mudar, que o país ia dar uma volta e… foi incrível.

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

Como puro início

Sophia de Mello Breyner, O Nome das Coisas (Obra Poética, 2011, p. 619)

PB: Pouco depois, colocado na Comissão de Extinção da PIDE, percebeu que, afinal, as coisas não estavam em tão bom caminho…

MST: É curioso, porque, num espaço de meses (seis meses), eu estive várias vezes na Cadeia de Caxias [e em muito diversas circunstâncias]. A visitar o meu pai enquanto preso. Depois, já na Comissão de Extinção da PIDE, a interrogar PIDEs que tinham estado a interrogar o meu pai meses antes. E, depois, a interrogar presos do 11 de março, na qualidade de advogado deles […]. Três situações bem distintas. Eu entrava no Reduto Norte do Forte de Caxias com a sensação de que a História estava em movimento acelerado e que, qualquer dia, poderia ser eu o preso. Aliás, esse ano, esse ano e meio, entre abril de 1974 e o 25 de novembro de 1975, é um tempo-movimento uniformemente acelerado do ponto de vista político, independentemente das ideias que cada um tivesse na altura ou que tenha agora. Absolutamente emocionante. Quando aquilo acabou – e felizmente que acabou, porque não podíamos viver sempre assim, numa feira de loucura – eu, que era jornalista, pensei: “‒ Que chatice isto vai ser a partir de agora”. Porque, de facto, então, todos os dias, para quem trabalhava nos jornais, [o registo] era absolutamente emocionante. Desgastante, mas emocionante. Eu chegava ao fim do dia e só me lembrava do que diziam os jornalistas do Vietname: “‒ Temos o trabalho mais emocionante do mundo e ainda nos pagam para o fazer”. Era verdade.

Miguel Sousa Tavares

PB: Não espero que nos conte tudo, há coisas até que não se contam. Mas, naquele período, o Miguel teve acesso privilegiado a um conjunto de informações, depois desaparecidas. Refiro-me, nomeadamente, ao desaparecimento de muita da informação constante nos arquivos da polícia secreta e que, mais tarde, – sabe-se lá como – viriam a aparecer nos…

MBT: … nos arquivos Mitrokhin, em Moscovo. Quanto a isso, e independentemente da composição política desta assembleia, [posso dizer o que] eu vi, com os meus próprios olhos. Disse-o já, escrevi-o, fui chamado à PJ/ DCCI para o dizer, e repito-o: vi então o PCP roubar camiões de arquivos da PIDE, com a cobertura do MFA, da Marinha (que era quem tinha a guarda do Forte). Camiões de arquivos que depois apareceram em Moscovo e foram publicados no arquivo Mitrokhin. Portanto, passaram diretamente para Moscovo muitos arquivos secretos da NATO, muitos. Mas não só arquivos da NATO. Começaram por fechar uma ala do Forte de Caxias, onde só podiam trabalhar os tipos do PCP. Os outros não podiam. Eu não era de partido nenhum, tinha sido indicado pelo Partido Socialista e pela LUAR, mesmo não pertencendo a nenhum dos dois… Mas não era do PCP e deixei de ter comunicação com aquilo. Depois comecei a perceber porquê: os arquivos foram carregados. Disse-o, escrevi-o, publiquei, fui chamado para testemunhar, testemunhei e confirmei. Não aconteceu nada.

Heraclito de Epheso diz:

“O pior de todos os males seria
A morte da palavra”

Diz o provérbio do Malinké:

“Um homem pode enganar-se em sua parte de alimento
Mas não pode
Enganar-se na sua parte de palavra”

Sophia de Mello Breyner, O Nome das Coisas (Obra Poética, 2011, p. 632)

PB: O Miguel defende no livro que o Partido Comunista tinha um projeto de instauração de um regime comunista em Portugal.

MST: Não tenho [sobre essa matéria] a mais pequena dúvida, nenhuma. Aliás, isso está documentado. Hoje, a minha única dúvida, é saber se em Moscovo, na U.R.S.S. governada por Leonid Brezhnev, lhes deram luz verde ou não. Se eles acharam que tal era possível, ou não era possível. [Na altura, a princípio], os americanos cruzaram os braços. Embora o [Frank] Carlucci, em Lisboa, os tenha entretanto convencido a não cruzarem os braços ‒ “não, aquilo não está perdido para o Partido Comunista”, “não, vocês apostem no Mário Soares”… Foi Mário Soares ‒ que acabou financiado pelos alemães, em grande parte pela Fundação Friedrich Ebert (FES) ‒ quem conduziu efetivamente o contragolpe. Que o Partido Comunista quis tomar o poder em Portugal não tenho a mais pequena dúvida. Perguntei isso ao Álvaro Cunhal um dia, em entrevista, mas claro que ele me disse que não: “‒ Não, de modo algum, não quisemos” […]… Há um livro de um húngaro, François Fetjö (1909-2008), chamado «História das Democracias Populares após Estaline», onde vemos bem como, vinte e tal anos depois, o Partido Comunista Português reproduziu em Portugal exatamente os mesmos passos que foram feitos lá, [nos países da esfera soviética]: tomada de controlo dos Serviços Secretos, tomada de controlo da imprensa do Estado, Unicidade Sindical… Tudo, tudo, passo por passo. O objetivo final seria decapitar o Partido Socialista, o que efetivamente tentou fazer com o golpe de Manuel Serra contra Mário Soares. Só quando falharam aí, começou tudo a andar para trás. […]

PB: Mário Soares, para o Miguel, é a grande figura do século XX.

MST: Da nossa política.

PB: Amigo da casa, com muitas cumplicidades com a família, com o seu pai… E é alguém que o Miguel admira bastante. Como se relacionava com Mário Soares?

MST: De várias maneiras. Passei por várias fases. Boas, más, tudo. Uma vez, numa entrevista em direto, ele não gostou de uma pergunta que lhe fiz e deu-me um pontapé debaixo da mesa. Magoou-me, não sei como me aguentei sem dizer “ai” ou “vai à merda”. Passámos variadíssimas fases, mesmo depois, curiosamente, no final da vida dele… Eu costumava passar férias no Algarve, logo ao lado da casa dele. Quando a minha mãe era viva, eles visitavam-se muito […] e eu ia [levá-la]. Quando a minha mãe morreu, ele continuou a convidar-me para ir lá jantar. Eu lembro-me da última vez em que ele me telefonou, estava lá sozinho com a enfermeira e disse-me assim: “‒ Miguel, venha cá jantar. Mas tem de esperar que o João [o filho] não esteja cá, que ele está um chato”. Era um grande contador de histórias também. Tinha muita graça. Mas era um homem que eu admirava também porque tinha muita coragem, muita perseverança. Acho que ele conseguia ver longe e, naquilo que era essencial, não se enganava. Tinha certamente muitos defeitos, eu nunca escondi… Uma vez, comigo a entrevistá-lo, levantou-se e foi-se embora. Felizmente, não foi em direto, era uma entrevista gravada no Palácio de Belém. Foi-se embora aos gritos, a dizer: “Você veio aqui ofender‑me” e mais não sei quê. Eu, que já o conhecia, fiquei sentado. Olhei para o assessor dele e disse assim: “‒ Ó Carneiro Jacinto, o que é que tu achas? Um quarto de hora, ou meia hora?”. E o gajo diz: “‒ Hum, vinte minutos”. […] E ele voltou. […] De outra vez, contei-lhe uma anedota que ele adorou. Íamos no avião, já não sei a caminho de onde, e eu contei-lhe: “‒ Ó Senhor Presidente, sabe a anedota de quando o senhor morre e vai para o céu?” Ele disse: “‒ Não, não”. “‒ O senhor é ateu, mas, chega lá cima e resolve ir para o Paraíso. Pelo sim pelo não, é melhor do que o Inferno. Chega lá, e São Pedro diz-lhe: «Eh, pá, não pode ser, ó Dr. Mário Soares… O senhor cometeu tantos pecados no mundo, não pode ir para o Céu». O Senhor Presidente implora, implora: «‒ Olhe que eu também levei a democracia a Portugal! Olhe que eu pus Portugal na Europa! Olhe que não sei o quê…». E São Pedro: «‒ Eh, pá, está bem… Você entra, mas vai ter de levar uma grande penitência…» «‒ Então qual é?»… «‒ Você vai andar vinte anos de mão dada com a Madre Teresa de Calcutá! De manhã à noite. Você acorda com ela, toma o pequeno-almoço com ela, almoça com ela, janta com ela, dorme com ela. Não fala com mais ninguém a não ser com ela. De manhã à noite.». «‒ Tem de ser?». «‒ Tem de ser. Ou então é o Inferno.» «Ah, bom. Então, se é isso, vou com a Madre Teresa». O então o Senhor Presidente vem, de mão dada com a Madre Teresa, e nisto vê o Cavaco, de mão dada com a Madonna! Aí, o Senhor Presidente passa-se da cabeça… (esta anedota estou eu a contá-la a ele no avião), passa-se da cabeça, volta atrás e não se contém: «‒ Ó São Pedro, está bem que eu tenho alguns pecados… Mas o Cavaco é algum santinho para ir ali com a Madonna?». «‒ Calma, filho. Que aquilo é a penitência da Madonna.»“ (risos) O homem ia caindo do avião abaixo, foi um momento da maior felicidade: ele torcia-se a rir, torcia-se a rir de felicidade. […]

Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro
[…]
E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

‒ Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Sophia de Mello Breyner, “Pátria”

(Mário Soares, Os poemas da minha vida, 2005, p. 134)

PB: Na parte final, nos últimos capítulos, o Miguel fala sobre a sua ligação ao Zeca Afonso, em Lagos, o pescador, o homem que lhe ensinou a pescar e o levava à pesca…

MST: O Zé Afonso, não era o cantor.

PB: O Zé Afonso. Iam à pesca da lula. Daquelas horas que passavam juntos quando iam para o mar – o Miguel ainda um rapaz novo – resultou uma amizade que se manteve até hoje. Eu diria comovente o retrato que faz dessa ligação, ainda hoje mantida. O que é que verdadeiramente o levava a ir com ele, à pesca?

MST: Primeiro, o fascínio de um miúdo que tinha então 11 anos. Ele tinha o dobro, teria 22. Há ainda o fascínio do mar, o fascínio da pesca, que ainda hoje tenho. Nós íamos à pesca à vela (ele na altura nem sequer tinha barco a motor). Depois, devo muito à minha mãe, que teve a coragem de sempre me deixar ir. Porque ela tinha medo e, às vezes, o mar estava mau. Ela deixava-me ir na mesma. Passávamos a noite inteira à pesca. A mim fascinava-me, como a qualquer miúdo, [aquela aventura]. Felizmente (ainda que eu ache que não teria ficado agarrado) não existiam jogos eletrónicos e essas coisas. O meu pai só deixou entrar a televisão em nossa casa quando eu já tinha uns 16 anos, o que também ajudou muito. Os Verões, nessa altura, em Lagos, eram praia, praia, praia, mar, mar e mar. Era apanhar caranguejos, camarões, aprender a mergulhar… Ir à pesca. Ser à noite era mais uma razão para a escapatória. E aquilo era mágico. Tenho saudades: assim como tenho a nostalgia de comer cebola com sal e broa, tenho a nostalgia do cheiro do Petromax no mar, daquele cheiro que [me deixava meio tonto]. E de comer escabeche. Que era o que sempre se comia porque não tínhamos como aquecer a comida. E no fim, para aquecer, o Zé Afonso dava-me um gole de aguardente de medronho, de que ainda hoje gosto imenso. Aquilo queimava […] Um puto de 12, 11 anos, beber um medronho era qualquer coisa. […]

No alto mar
A luz escorre
Lisa sobre a água.
Planície infinita
Que ninguém habita

Sophia de Mello Breyner, Poesia (Obra Poética, 2011, p. 47)

Terminou esta entrevista com uma homenagem a Sophia de Mello Breyner Andresen: leituras, acompanhadas ao piano, de “Arte Poética III”, “Pudesse Eu”,” Tudo me é uma dança” e “Quando”, de sua autoria, e ainda do poema de Teixeira de Pascoaes que lhe é dedicado, “À Sofia Breyner”. Os poemas de Sophia introduzidos à volta desta entrevista não fizeram parte do evento e são da responsabilidade de Maria Luísa Malato.

Conteúdos Relacionados
CADAVRE-EXQUIS: Homenagem à poesia do acaso VARIAÇÕES 29 Outubro 2019 Escrito por ALUNOS DE ESTÉTICA
Uma imagem de Sophia VARIAÇÕES 29 Outubro 2019 Escrito por NUNO JÚDICE Ó noite, flor
Sophia: O que há num nome EDITORIAL 29 Outubro 2019 Escrito por MARIA LUÍSA MALATO
Dignidade na palavra e na sabedoria LEITURAS 29 Outubro 2019 Escrito por GUILHERME D'OLIVEIRA MARTINS
Sophia e a dança LEITURAS 29 Outubro 2019 Escrito por MARIA JOSÉ MAGALHÃES DA SILVA

Sophia: O que há num nome

29 Outubro 2019

Escrito por MARIA LUÍSA MALATO

Aquilo a que chamamos rosa, mesmo com outro nome, teria igual perfume?

What’s in a name?”, o que é que há afinal num nome? Aquilo a que chamamos rosa, mesmo com outro nome, teria igual perfume? É a partir de 1954 que, na capa de «No tempo dividido», aparece pela primeira vez a assinatura de Sophia, mantida a partir de então. Com efeito, em «Poesia» (1944), «Dia do Mar» (1947) e «Coral» (1950), a autora tinha assinado os seus livros com a grafia simplificada pelo acordo: Sofia. Em janeiro de 1960, Sophia de Mello Breyner escreveria a Jorge de Sena sobre um crescente compromisso com o seu tempo, que ela data do tempo em que concluiu «O Cristo Cigano». O crescente compromisso é paradoxal: anda a par com um acolhimento involuntário:

Estou muito dispersa mas às vezes não sei como escrevo “uma coisa” muito construída em que não tinha quase pensado. Foi assim que acabei «O Cristo Cigano». Lembra-se? Está pronto, nem sei como. É diferente das minhas outras coisas. O mundo da «Poesia», do «Dia do Mar», do «Coral» morreu e o mundo do «Mar Novo» foi ultrapassado. Porque é que escrevo versos? Aliás agora não faço versos como dantes. Faço “uma coisa” (Correspondência, 2010, pp. 33-4).

Pode o nome “Sophia” ler-se então como um arcaísmo, forma antiga de um passado nostálgico? É ele nostalgia de uma idade do ouro, exemplificada pelas referências à mitologia helénica? Ou a reivindicação de uma cultura europeia que não seja estranha ao sensível quando se dedica ao pensamento especulativo? Sophia critica um verso de Jorge de Sena que vê na Grécia “um passado revoluto, extinto e depilado” (carta de 18/11/1969). Nietzsche (como Sophia de Mello Breyner?) acha significativo que a história da Filosofia tenha aparentemente começado com essa ideia pré-socrática, atribuída a Tales de Mileto, de que tudo teria origem na água. Heidegger interroga-se, ao analisar os hinos de Hölderlin, que sentido podem fazer as alusões aos “bem-aventurados” gregos: “Não a eles…”? Também nós nos perguntamos sobre o significado de um arcaísmo? Até que ponto, na obra de Sophia de Mello Breyner, persistem leituras da filosofia de Nietzsche ou Heidegger e uma consequente suspeição do pensamento platónico, que opõe a perfeição do mundo das ideias à ilusão do mundo sensível? A que sabedoria, antiga ou nova, fará o seu nome referência? Não é este seu nome (ainda) um persistente “amor à sabedoria”? Do pensamento dos gregos antigos realça aquela “veemência como a das cigarras a cantar no calor de Delphos. De qualquer maneira, sinto-me muito heideggeriana” (Sophia a Jorge de Sena, em carta de 18/11/1969).

1. Não são abundantes textos de Sophia que nos permitam legitimar uma “Filosofia”. Se a filosofia demonstra e a poesia mostra, Sophia sempre escolheu mostrar-nos e sempre evitou demonstrar-nos. Se a sua obra é impensável sem a ideia de “testemunho”, “compromisso” e “ação”, ela parece centrar-se numa coerência que dispensa a lógica e se justifica com o sentimento. A própria justiça, o ato de dar a cada um o que é seu, se afasta de uma ética que mede o que é de cada um para se confundir “com aquele amor que, segundo Dante, move o sol e outros astros”. Tudo se envolve em sentimento: o pensamento, a palavra, o ato e as suas omissões. “Se em frente do esplendor do mundo nos alegramos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão”. É desse sentimento que extrai uma “lógica íntima, interior, consequente consigo própria, fiel a si mesma” (“Arte Poética III”).

2. E todavia, é possível vislumbrar em alguns textos de Sophia (nas artes poéticas, na sua correspondência, nas entrevistas, em algumas alusões dos seus poemas ou das suas traduções…) uma explicação mais demorada desse pensamento “poético” que se tem por origem do pensamento, o pensamento nascido das sensações. A sua obra não se deseja isenta de circunstância: parte do sensível. Mas reflete também sobre esse sensível. Chega a evocar a sua simpatia pela filosofia de Heidegger e a desconfiança que igualmente sente pelo pensamento filosófico que desvalorize o sensível.

A civilização ocidental traiu a imanência. Talvez essa traição tenha começado em Sócrates e Platão que a beberam na “Sabedoria da Ásia”. O ser deixou de estar na physis passou a estar no logos (carta a Jorge de Sena, em 18/11/1972).

Porém, a obra de Sophia de Mello Breyner está muito longe de invalidar conceitos abstratos: o conceito de Poesia é nela quase ontológico. “Encontrei a poesia antes de saber que havia literatura. Pensava que os poemas não eram escritos por ninguém, que existiam em si mesmos, por si mesmos, que eram como um elemento do natural, que estavam suspensos, imanentes” (“Arte Poética IV”). Em cartas a Jorge de Sena, desenvolve um discurso crítico, nomeadamente sobre as narrativas: “Em verso eu não preciso de compreender, mas em prosa preciso” (em carta de 20/3/1961).

3. Não há na obra de Sophia indiferença ao imediato. Mas também não há cedências. A expressão do compromisso social da arte passa certamente pelas “palavras ditas em 11 de Julho de 1964 no almoço promovido pela Sociedade Portuguesa de escritores por ocasião da entrega do Grande Prémio da Poesia atribuído a Livro Sexto”, em claro contexto de resistência à Ditadura salazarista. Mas se Sophia começa por dizer que o artista “não é, e nunca foi, um homem isolado que vive no alto duma torre de marfim”, logo explicita que “mesmo aquele que mais se coloca à margem da convivência, influenciará necessariamente, através da sua obra, a vida e o destino dos outros”. No final, como síntese, parece falar de si: “Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas a obra do artista vem dizer-nos isto: Que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade de ser”.

Ina Gouveia

4. O que há afinal sob um nome como “Poesia”? A Sophia parece estranha uma Poesia que pudesse ser definida pela predominância de uma função poética sobre funções do pensamento julgadas autónomas. Não lhe interessa a erudição, a busca de mais informação: “[…] perco-me um pouco na erudição. Rigorosamente eu só procuro a ‘Sophia’, isto é, conhecimento que é com-nascimento” (carta a Jorge de Sena, 11/1964). Também não se limita a uma Estética, que busque o efeito do belo.

Pois a poesia é a minha explicação como universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta. […] [E] Se um poeta diz  “obscuro”,  “amplo”,  “barco”, “pedra” é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade (“Arte Poética II”).

Quando se diz que as palavras não foram escolhidas esteticamente pela sua beleza, colocam-se em causa noções mais canónicas do que sejam a Estética ou a Beleza. Mas não podemos deixar passar em branco esta pertinência: trata-se de uma escolha em diálogo com a realidade de que a beleza comum não é sinónima: a Poesia é aqui definida como “obstinado rigor”, em termos muitos semelhantes, aliás, àqueles que Ruy Cinatti usava, ao falar da interse ção entre Poesia e Ciência.

5. A mesma questão se poderia fazer agora sobre a Filosofia: O que é a Filosofia? Jean Pierre Faye, para responder a esta questão começa por perguntar o que é um sujeito pensante? Ser que se concebe linha do horizonte, fronteira transponível, ente que respira. Ao respirar, tomando consciência do ar que inspira e expira, o sujeito é então capaz de viver nessa fronteira que une a pulsão da vida à pulsão do conhecimento, o sujeito que vive e o sujeito que se apreende como objeto. “O verbo grego que significa o ser, eimi, eu sou, […] significava respirar” (Faye 1999, p. 20). Sophia escreverá sobre semelhante consciência da respiração do sujeito e do mundo, mas atribuindo tal consciência à Poesia: “[julgava] que os poemas […] eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio. Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si” (“Arte poética V”).

6. Radicalmente, isto é, de raiz, a Filosofia e a Arte não se ocupariam sequer da distinção entre o belo e o horrível, ou até do que julgamos verdadeiro ou falso, justo ou injusto. Seriam ambas (antes de tudo o mais) o exercício de uma mesma narrativa que brota do espanto, do estranhamento e da admiração. A sabedoria da Ciência, da Filosofia e da Arte proviriam de um desejo generalizado de vida fecunda e nova, excitado pela possibilidade de descobrir subitamente algo que estava disponível desde sempre (Faye 1999, p. 28). Um espaço penumbroso onde se descobre uma janela e uma maçã vermelha sobre uma mesa (“Arte Poética III”). Sophia reescreve constantemente o Génesis, aquele momento “onde tudo começou intacto no primeiro dia de mim” («Dual»; Delphos, maio de 1970). Logo no primeiro poema do seu primeiro livro de poemas, encontramos uma celebração desse eterno retorno: “Apesar das ruínas e da morte,/ Onde sempre acabou cada ilusão,/ A força dos meus sonhos é tão forte,/ que de tudo renasce a exaltação/ E nunca as minhas mãos ficam vazias” («Poesia»). E se passarmos para a última “Arte Poética” publicada em «O Búzio de Cós», é ainda uma celebração da mesma busca que encontramos: “dar minha voz à veemência das coisas/ E fazer do mundo exterior substância da minha mente/ Como quem devora o coração do leão// Olha fita escuta atenta para a caçada no quarto penumbroso”. Ainda o quarto penumbroso que tem uma janela e uma maçã vermelha por trincar?

Escutar. Ver. Estar atento. Tal a característica maior do “sophos”, daquele que sabe: “ficou em mim a noção de que fazer versos é estar atento e de que o poeta é um escutador” (“Arte Poética IV”). O “philosophos” é talvez já uma elaboração reflexiva do “sophos”: o filósofo busca o saber, “move-se para” mas não o “habita”. A “Sophia” é já uma consciência. E a “Filo-sophia” torna-se a consciência da consciência. Nesta dimensão primeira, é ainda um “narrador de muitas coisas” (nome que Heraclito chama ao que testemunha um saber). Sophia testemunha, mas ainda em contacto com a pele, próxima da nudez das coisas, sensíveis. A nudez é a pele, uma prega, um último véu. Sob esse transparente véu, a metáfora dá-nos a ilusão de um continuum feito de diferentes espaços e diferentes tempos. Talvez esse continuum se confunda com a eternidade. A casa dos avós de Sophia, no Campo Alegre, tem o mesmo vermelho dos palácios de Creta: nela vive ainda hoje um Minotauro. “Este búzio não o encontrei eu própria numa praia/ […] Comprei-o em Cós numa venda junto ao cais/ rente aos mastros baloiçantes dos navios”. É ele todavia que lhe permite, e ainda a nós nos permite, conhecer “o cântico da longa vasta praia/ Atlântica e sagrada/ Onde para sempre minha alma foi criada”. O leitor olha agora para a ânfora que nunca comprou numa loja de Lagos: “quando a encher de água” ela lhe dará de beber. Mas ainda agora ela nos dá de beber. “Paz e alegria, deslumbramento de estar no mundo, religação” (“Arte Poética I”).

“Belas possibilidades de vida”, poderia comentar Nietzsche.

Conteúdos Relacionados
CADAVRE-EXQUIS: Homenagem à poesia do acaso VARIAÇÕES 29 Outubro 2019 Escrito por ALUNOS DE ESTÉTICA
Uma imagem de Sophia VARIAÇÕES 29 Outubro 2019 Escrito por NUNO JÚDICE Ó noite, flor
“De olhos bem abertos”: breve evocação de Sophia de Mello Breyner Andresen GRANDE ENTREVISTA 29
Dignidade na palavra e na sabedoria LEITURAS 29 Outubro 2019 Escrito por GUILHERME D'OLIVEIRA MARTINS
Sophia e a dança LEITURAS 29 Outubro 2019 Escrito por MARIA JOSÉ MAGALHÃES DA SILVA

Dignidade na palavra e na sabedoria


LEITURAS

29 Outubro 2019

Escrito por GUILHERME D’OLIVEIRA MARTINS

Sophia de Mello Breyner é um sinal muito português e universal de talento, sensibilidade e sabedoria. Cada palavra da sua obra apela à reflexão, à exigência e à liberdade, para além do efémero das ideias feitas para contentarem o “espírito do tempo”.

“Nasci no Porto” – dizia Sophia de Mello Breyner Andresen (*1919-†2004).

A cidade, os seus arredores, as praias próximas, descendo para Sul, permanecem para mim a pátria dentro da pátria, a Terra materna, o lugar primordial que me funda. Ali estão as tílias enormes, as manhãs de nevoeiro, as praias saturadas de maresia, os rochedos cobertos de algas e anémonas, as Primaveras botticellianas, os plátanos, a cerejeira, as camélias…

Sophia foi, podemos dizê-lo com segurança, um caso maior da poesia europeia do nosso tempo, ombreando com Rainer Maria Rilke. É um valor inequívoco e sereno, que procura de modo muito exigente os valores indivisíveis da liberdade, da dignidade e da igualdade. E a partir deste reconhecimento, é justo lembrar a cidade onde nasceu. E não é indiferente a ligação à cidade que invoca a nobreza dos princípios, a aristocracia do comportamento e atitude liberal, aberta e inconformista, de antes quebrar que torcer. “Que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência, mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser” (“Arte Poética”). D. António Ferreira Gomes, o grande Bispo do Porto do século XX, disse no seu “Hino” à cidade, que o Porto era “terra de liberdade, de lealdade, de cultura e de trabalho”. E de Sophia, D. António invocou o sentido telúrico e “a sua estética do aquático, do mar, do nevoeiro e do ‘cheiro nu da maresia’, como igualmente a sua fusão sensorial no ar, no vento e nos longes do horizonte” (cf. Pórtico a Contos Exemplares, Porto, 1970).

Carlos Magno

Educou e mobilizou vontades. “No Centro Nacional de Cultura fiz de tudo” – era a própria que o confessava, com orgulho e alegria. Então “discutia-se tudo: os sistemas políticos, os problemas sociais, os problemas religiosos, o Corbusier, a pintura moderna, o surrealismo, o Fernando Pessoa, a literatura portuguesa, a literatura brasileira, a literatura americana, a guerra de África. À discussão cada um trazia o que sabia e também o que era”. Com a aparente fragilidade que todos lhe conhecemos, foi um exemplo de coragem e determinação. “Às vezes a polícia política (PIDE) aparecia: um dia fez uma busca à procura de uns papéis que não encontrou porque o Francisco os tinha escondido no frigorífico”. Afinal, não passava despercebido que “em certas sessões surgiam homens cinzentos e calados, com a gabardina abotoada até ao queixo e um ar simultaneamente taciturno e comprometido: ‘poker faced’”. No entanto, Sophia nunca se deixou intimidar pelos agentes da PIDE. Só tinha medo de fantasmas…

Sophia de Mello Breyner é um sinal muito português e universal de talento, sensibilidade e sabedoria. Cada palavra da sua obra apela à reflexão, à exigência e à liberdade, para além do efémero das ideias feitas para contentarem o “espírito do tempo”: “odiei o que era fácil/ procurei-me na luz no mar no vento”, escreveu em «Mar Novo» (1958). “Não tenho explicações/ olho e confronto/ e por método é nu/ meu pensamento”. O que importa é interrogarmo-nos sobre a ligação entre o destino e a criação artística e literária ‒ contra o fatalismo, para que a esperança se encontre com a vontade. A obra da poeta portuguesa, nascida numa família aristocrática portuguesa de raízes liberais, neta do Conde de Mafra, que lhe incutiu o amor pela poesia portuguesa de Camões a Antero de Quental, representa o rigor na palavra e nas ideias – o equilíbrio sereno na procura do tempo exato, da aventura essencial que busca o horizonte inatingível da liberdade e da verdade. “Numa disciplina constante procuro a lei da liberdade/ medindo o equilíbrio dos meus passos” («Coral», 1950).

Estamos perante uma voz inconfundível que cultivou a limpidez, num mundo que se deixa demasiado fascinar pela treva. A cidadã nunca renunciou a dizer de sua justiça, como voz incómoda de lutadora pela liberdade e pela democracia, contra a ditadura, a repetir-nos em todos os momentos que “vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”. E assim encontramos uma coerência irrepreensível entre a serenidade da atitude e a firmeza da convicção ‒ quando tudo pareceria apelar à distância e à comodidade. Francisco Sousa Tavares, seu marido, disse que “tinha sinais do seu Deus na confusão dos homens”. E Eduardo Lourenço viu bem quando diagnosticou “uma espécie de milagre, de raro e quase incrível privilégio” que deve “ter preservado cedo a jovem Sophia, católica e portuguesa, daquela obsessão culpabilizante que encharca por dentro a lírica nacional”. Os seus amigos, e todos quantos se cruzaram com Sophia, são unânimes em reconhecer que a capacidade criadora e a sensibilidade artística excecionais se aliaram sempre a uma inteligência política muito arguta. Os seus discursos políticos eram certeiros. Os seus combates recusavam sempre qualquer ambiguidade. Teve papel destacado na Comissão Nacional de Apoio aos Presos Políticos (e ainda temos na retina as imagens depois da Revolução portuguesa de Abril de 1974, à saída dos presos políticos da Prisão de Caxias, com a sua presença inesquecível). No episódio do encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores (SPE), aquando da atribuição em 1965 do Prémio de novelística a Luandino Vieira (escritor angolano proibido pela censura e perseguido pela polícia política portuguesa), Sophia colocou o Centro Nacional de Cultura, de que era Presidente, ao serviço da causa da liberdade do pensamento e da cultura. Isto, sem esquecer o apoio dado ao Manifesto dos 101, de 25 de Outubro de 1965, onde, sobre a guerra colonial, um grupo de cristãos (para quem Emmanuel Mounier e a sua obra «L’Éveil de l’Afrique Noire» eram referências fundamentais) dizia sentir “imperiosamente a responsabilidade de afirmar que se a solução vier a ser um trágico extremismo radicalmente antiportuguês, ela terá sido a lógica consequência de um outro extremismo anterior, de ódio gerador de outros ódios”.

Tratou-se de ilustrar com factos o que dizia Sophia em palavras belíssimas:

sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem.

Logo após a “revolução dos cravos” (1974) foi deputada à Assembleia Constituinte pelo Partido Socialista, ao lado de Mário Soares. Foi então marcante o discurso que fez sobre as liberdades de criação cultural e de aprender e ensinar (perante as tentativas de “frentismo revolucionário”) – tendo invocado o seu amigo Jean-Marie Domenach, então diretor da revista Esprit (que anos antes a polícia política impedira de entrar em Portugal). “A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar – para que o homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça. E, se o homem é capaz de criar a revolução é exatamente porque é capaz de criar a cultura” (Sessão de 2 de Setembro de 1975). A luta fundamental não deveria ser por uma “liberdade especializada”, mas pela liberdade do povo – liberdade de expressão e de cultura. E, a propósito, invocava, num gesto de exorcismo, a terrível frase de Milan Astray no paraninfo da Universidade de Salamanca: “Morra a Inteligência!”, para que nunca mais fosse possível ouvi-la. “Queremos uma relação limpa e saudável entre a cultura e a política” – insistia a deputada. “Não queremos opressão cultural. Também não queremos dirigismo cultural. A política sempre que dirigir a cultura engana-se. Pois o dirigismo é uma forma de anti-cultura e toda a anti-cultura é reacionária”.

Carlos Magno

Num dos últimos textos que escreveu, Maria de Lourdes Pintasilgo (militante cristã, única primeira-ministra em Portugal, em 1979, amiga de Sophia, falecida inesperadamente oito dias depois da escritora) leva-nos a considerar a poesia e a cidadania como as duas faces de Janus de Sophia. Se virmos bem, sem transigências, a autora de «Dual» fez da busca exigente da liberdade e da justiça a chave da sua peregrinação interior poética. Sem que a linguagem fosse alguma vez ofuscada pelo empenhamento pessoal em busca do outro e do comum. “Um país liberto/ Uma vida limpa/ Um tempo justo”. Sophia nunca foi indiferente à cidade e ao tempo, onde procurou a eternidade. Não é só o mundo grego que exprime estas palavras. É também, e talvez até, anterior a tudo o mais, a consciência da navegação do eu: “Eu me busquei no vento e me encontrei no mar/ E nunca/ Um navio da costa se afastou/ Sem me levar”. Mas, de repente, a sua palavra faz-se denúncia e a menina do mar torna-se violenta nas palavras: “Com fúria e raiva acuso o demagogo/ E o seu capitalismo das palavras”. Em Sophia, a palavra faz a pessoa, molda o povo, traz com ela história e sonho. Não hesita em dizer que: “De longe muito longe/ O homem soube de si pelas palavras/ E nomeou a pedra, a flor, a água/ E tudo emergiu porque ele disse”. De facto, “Sophia é ao mesmo tempo o dom e a beleza absoluta” (“Mil Folhas”, Público, 10-07-04).

“O que a Sophia diz está sempre certo!”. O poeta Pedro Tamen recorda a afirmação perentória e indiscutível de um outro poeta amigo de Sophia, Ruy Cinatti. Era assim, de facto, com as palavras medidas, de lugar irrepreensível, sempre em busca dos arquétipos divinos. Estamos perante uma poesia não catalogável. Há uma procura do tempo permanente, do que dura para além do imediato, das cidades imaginárias e das fronteiras virtuais. Muitos autores, atraídos pela beleza em estado puro, tentarão imitar o inimitável. Ninguém conseguirá, porém, imitar essas palavras únicas. Sophia de Mello Breyner ficará na língua e na literatura portuguesas e na cultura europeia ao lado dos maiores de sempre. Esse lugar conquistou-o há muito, desde muito cedo – nessa convergência única entre as brumas do Atlântico e a luz do Mediterrâneo. E neste país, falsamente considerado como de poetas, Sophia foi uma das maravilhosas exceções – num tempo especialmente pródigo, como outros não foram. É a dignidade do ser, na linhagem de Camões e de Antero, que na palavra e na sabedoria de Sophia se consuma…

Conteúdos Relacionados
CADAVRE-EXQUIS: Homenagem à poesia do acaso VARIAÇÕES 29 Outubro 2019 Escrito por ALUNOS DE ESTÉTICA

Uma imagem de Sophia VARIAÇÕES 29 Outubro 2019 Escrito por NUNO JÚDICE Ó noite, flor

“De olhos bem abertos”: breve evocação de Sophia de Mello Breyner Andresen GRANDE ENTREVISTA 29

Sophia: O que há num nome EDITORIAL 29 Outubro 2019 Escrito por MARIA LUÍSA MALATO

Sophia e a dança LEITURAS 29 Outubro 2019 Escrito por MARIA JOSÉ MAGALHÃES DA SILVA


Sophia e a dança

29 Outubro 2019

Escrito por MARIA JOSÉ MAGALHÃES DA SILVA
& MARIA LUÍSA MALATO

Sobre os textos gentilmente cedidos à CNB pelos oradores da conferência/conversa realizada no Teatro Camões a 25 de janeiro de 2014, que reproduzem as suas intervenções [Sousa, C. M., Eiras, P. e Santos, J. P. (2014). Sophia e a dança. Lisboa: Companhia Nacional de Bailado].

Este pequeno livro é constituído por três artigos sobre o tema “Sophia e a Dança”, e procura dar a conhecer a importância da dança na poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen. Como é dito na folha de rosto, é o resultado do trabalho de investigação levado a cabo por Carlos Mendes de Sousa, Pedro Eiras e José Manuel dos Santos, convidados pela Companhia Nacional de Bailado para uma conferência/conversa, realizada a 25 de janeiro de 2014, no Teatro Camões. Os autores foram convidados de forma criteriosa, não só pelo seu patente interesse na obra de Sophia, como também pela sua ligação ao diálogo entre as duas artes em causa: a literatura e a dança. Carlos Mendes de Sousa, professor na Universidade do Minho, especialista em literatura brasileira e poesia portuguesa contemporânea, é responsável pela mais recente edição da obra poética de Sophia de Mello Breyner Andresen num único volume, na Editorial Caminho em 2010. Entre os muitos estudos que tem sobre a poeta, distinga-se “Sophia e a dança do ser”, publicado em 2013 no âmbito do Colóquio Internacional sobre a obra de Sophia de Mello Breyner (2011), estudo que serviu de base para o texto aqui editado. Pedro Eiras, professor de Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e investigador do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, tinha também já prefaciado uma edição das obras de Sophia, e é um profundo conhecedor dos estudos interartes, sendo responsável pela orientação de várias teses nesta área. José Manuel dos Santos, escritor e programador cultural, apresentara em 2011, também no Colóquio Internacional Sophia de Mello Breyner Andresen, uma curiosa comunicação intitulada “Sophia e a felicidade”.

Comecemos pela forma do livro. Os artigos encontram-se publicados em formato de livreto, quase folheto de cordel, tamanho A5. A capa (em papel pouco mais pesado que o usado no interior) usa o pormenor de uma foto de Sophia, ampliado até ficar um pouco desfocado: desta forma, mar e rochedos lembram ilhas e a espuma das ondas a bater nas rochas cria uma névoa a lembrar os fatos das bailarinas. Esta capa, tão cuidada e simples, é um indício do que podemos ler. É uma publicação de apenas 20 páginas, mas o tamanho desta obra não nos deve enganar quanto à sua pertinência. Sugere-nos uma folha de cena, distribuída aos espetadores nas grandes produções dramáticas. Quem a leva para casa não a destrói, porque a folha de cena ajuda a ver/ler, ainda quando as cortinas já se fecharam. Sugere também um folheto de cordel, outrora feito para um público mais democrático, o público imprevisto que não foi ao espetáculo no Teatro Camões.

Cremos útil a leitura desta pequena obra pelo interesse e insuspeita complexidade que a relação entre a poesia de Sophia e a dança revela. Julgamos também o tema raro, para Sophia como para outros poetas ou escritores, porque sendo comum a relação entre poesia e música, não é usual este confronto entre a poesia e o que na dança vai para além da música: o gesto, o movimento. É por tornar este diálogo acessível que esta pequena monografia nos parece útil, pois nos permite percorrer a obra da poeta numa nova perspetiva, muito para além dos clichês com os quais muitas vezes os leitores comuns se deparam, exemplificada até pelas considerações recomendadas aos alunos de Português e Literatura Portuguesa, no ensino básico ou secundário. A poesia de Sophia não é uma poesia que se preste a lugares-comuns. Mas sob este aspeto engana: parece simples, e frequentemente caímos no erro de achar que a simplicidade exclui a complexidade.

Em ano de comemoração do centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner, pareceu-nos pertinente precisamente ir buscar este conjunto de artigos para quem se interessa pela obra de Sophia de Mello Breyner Andresen: todos e cada um de nós, bastando que cada um de nós queira ser enganado pela sua simplicidade. Mas também o cremos exemplar para o estudioso/ investigador que se interesse por novos ou inusitados caminhos de análise comparatísticas, nomeadamente pelas pistas que propõe ao cruzar duas artes distintas ou o pensamento literário com o pensamento filosófico.

O primeiro artigo, intitulado Sophia: tudo me é uma dança”, da autoria de Carlos Mendes de Sousa, debruça-se sobre três esferas de relação entre a dança e a obra de Sophia. A um nível biobibliográfico, Carlos Mendes de Sousa faz-nos um levantamento (por poemas, memórias, entrevistas e outros depoimentos de Sophia) de elementos comprovativos do seu amor pela dança. A um nível mais literário, debruça-se sobre “o modo como a dança entra na poesia” (p. 4), e consequentemente as marcas desta ligação entre a poesia e a dança ‒ ligação formal e semântica, literária e filosófica ‒ que podem conceber-se como amplos alicerces sobre os quais assenta a sua poética. Por fim, analisa o modo como esta relação entre poesia e dança se relaciona ainda com a afirmação do poder da linguagem que, como a dança, se concebe como força de “consubstanciação com a realidade” (p. 7). Poesia e dança procuram, na amplitude do espaço, um gesto justo, certo, ética e esteticamente. Quer tenha por paradigma a cultura da Grécia Antiga, quer tome por argumento a filosofia de Heidegger (e, avessa a rótulos, Sophia declara-se “muito heideggeriana” quando, em 18 de novembro de 1969, escreve a Jorge de Sena) a dança, como a poesia, é uma coincidência entre o nosso ser e os seres (p. 8), um processo de despersonalização. Significativamente, Carlos Mendes de Sousa toma como ponto de partida uma entrevista de Sophia a Armanda Passos, publicada em fevereiro de 1982, em que Sophia relembra um momento de particular beleza poética – o 25 de Abril de 1974 – e recorre ao léxico da dança para o descrever (p. 2). E termina também com uma entrevista, a que Sophia deu a Richard Zenith, em Outubro de 2001, quando a impossibilidade de dançar a limita a um movimento da mão que faz oscilar as pétalas de uma jarra (p. 9). A entrevista é o género em que a máscara do eu poético mais se pode aproximar da do eu biográfico. Também as memórias familiares, em particular as dos filhos, recordam Sophia em gestos e poses que remetem para uma ligação de facto muito próxima de Sophia a esse mundo quase onírico, do bailado. Esta ligação com a dança teria uma manifestação “direta nos domínios da dicção e da corporalidade” na obra poética, mas também nos contos dedicados às crianças. Carlos Mendes de Sousa refere como exemplos «A Menina do Mar», «A Fada Oriana» e o «Rapaz de Bronze», nos quais, de modos diferentes, a dança surge ou ligada diretamente à caracterização das personagens (no caso de «A Menina do Mar» e de «A Fada Oriana») ou insinuada na própria construção do texto, qual coreografia de palavras (como em «O Rapaz de Bronze»).

Carlos Magno

O estudo de Pedro Eiras, “Como se de novo fosse criada cada coisa”, encontra-se divido em quatro partes, centradas na coincidentia oppositorum, e abrindo sucessivamente em ampliações dessa conciliação de opostos: o dia e a noite; o real e a invenção; a consciência e a inconsciência; a vida e a morte. A primeira, “Uma tensão contida nas próprias coisas”, parte do diálogo entre a noite e o dia, discorrendo sobre como o próprio ato de escrita, o modo como a poesia surge em/a Sophia, pode ser comparado à encenação de um bailado. Em “Inventar o Real”, o autor parte de um princípio fundacional da poética de Sophia, a semelhança entre a vida, a poesia e a dança, para compreender a similar conceptualização do tempo e do espaço, entre a busca de um equilíbrio e a aceitação da sua disciplina. A terceira parte, “A Dança, Consciência do Mundo”, fala consequentemente de um tempo ‒ inventado e prévio, uno e dual. A dança, como a poesia, pressupõe quer um movimento universal, pré-existente, anterior à sua própria criação, quer uma procura desse movimento. Escreverá Pedro Eiras belissimamente: “assim o maquinista se torna aprendiz da marioneta: porque a marioneta é obediência absoluta à gravidade, atenção extrema a um ritmo. Mas o maquinista pode, por seu turno, aceitar o chamamento perfeito da gravidade, se ouvir a marioneta e, através dela o movimento da origem, o primeiro capítulo do mundo” (p. 14). Por fim, em “A Dança”, o autor antevê uma outra vertente desta conexão entre a poética de Sophia e a dança: em Sophia “a morte dança”. E ainda que não se trate aqui da macabra “dança da morte”, citando o poema “Goyesca” (Andresen, 2015, p. 162), Pedro Eiras interroga-se sobre a natureza desta morte presente na poesia de Sophia: morte, fim de vida, ou morte latente, o “esqueleto” de Pascoaes? (Pascoaes, 1987). A (omni)presença da morte deixa-nos pistas de análise que só aparentemente foram antes silenciadas: é que a morte em Sophia repete com outros trajes a dança da noite, ou o processo de aceitação da marioneta, mestre do maquinista.

O último artigo intitula-se simplesmente, como o libreto, “Sophia e a Dança”. Nele, José Manuel dos Santos elenca e analisa os vocábulos enquadráveis no campo semântico do gesto e do movimento, ao qual se associa a ideia de dança. É dos três textos o que, apesar da sua brevidade, se centra mais no vocabulário dessa relação entre a literatura e dança. Explícita e implicitamente é nuclear a ligação da sua poesia com a dança: José Manuel dos Santos cita vários instantes da sua poesia que “falam de dança” mas interessa-nos sobretudo quando, “falando de outras coisas, é ainda de dança que falam” (p. 17). O artigo oscila entre os poemas de Sophia e os autores que definiram a dança em termos semelhantes aos que Sophia atribui à poesia: “Para Sophia, a vida e a obra não se dividem nem se separam. Na dança, o nosso corpo é o papel da nossa escrita” (p. 18). O ritmo do texto é o da enumeração, da gradação, com frequentes sensibilidades às variantes de um oxímoro: “a unidade na multiplicidade” (p. 18). À dança associa-se uma ideia nietzschiana de leveza, de ausência de gravidade (Badiou, 1999), de “movimento ascensional”, de fuga à “dispersão e ao naufrágio”, no qual o “ser” se revela, na associação desse “bailado” aos restantes elementos, como essência, imanente à poesia e à vida (Sousa, 2014). Porque, em Sophia, poesia e vida não se desassociam, encontram-se em diálogo (luta?) permanente, entre o efémero e o infinito, e a criação poética revela-se uma necessidade e uma parte indissociável do “ser”. José Manuel dos Santos remata o seu estudo voltando àquela ideia de felicidade que com certeza o motivou: a felicidade que está “na physis e na imanência”, também elas unas e múltiplas.

Concebidos como “conversa”, em diálogo, estes três artigos levam o leitor a refletir sobre essa característica etérea, onírica, mítica, que Sophia visa enquanto (ser) poeta: o gesto que é preciso, isto é rigoroso e necessário. Em forma de nereide, musa ou bailarina, povoado pelos mitos e divindades da Grécia antiga, executado pelas fadas, pelo mar e pelo vento, vamos encontrar espelhado na sua poesia um espetáculo de bailado em que todos se movem numa versificação marcada pela disciplina/liberdade de composição e por uma coreografia que traduz um ritmo e uma melodia inventadas, porque persistentemente buscadas.

Não sendo propósito destes três estudos esgotar a bibliografia possível sobre Sophia e a dança, sentimos a falta de uma referência entre a poesia de Sophia e a de Teixeira de Pascoaes, autor de «O Bailado». Ainda neste domínio cremos profícuo um cruzamento da obra de Sophia com a de Pascoaes, fruto até das leituras de Sophia desde a adolescência. Escreve Pascoaes: “A dança chama-se vida? O que me seduz é o par vertiginoso e os seus movimentos em linhas doidas, agitadas.” (Pascoaes, 1987, p. 41); “A vida é o bailado das horas, a corrida vertiginosa do Tempo […]” escreve Pascoaes (1987, p. 42).1 Sophia parece responder-lhe: “[…] E no seu bailado levada / Pelo jardim deliro e divago […]”. (Andresen, 2015, p. 129)2; “Quem como eu em silêncio tece/ Bailados, jardins e harmonias? (Andresen, 2015, p. 168)… Une-os desde logo esta ideia de que “A vida é um bailado que se continua na morte – um bailado eterno!” (Pascoaes, 1987, p. 39). Em Pascoaes, como em Sophia, a dança é também pré-existente ao tempo inventado pelo seu movimento, o seu “instante” é instante criador, é a “origem”, perene, anterior até à própria criação. Assim, existindo uma dança que é presente e uma que e anterior, terá o poeta, no ato de invenção/nomeação do mundo, de aceitar a pluralidade e rejeitar a unidade. A poesia ‒ oráculo, recetáculo dessa dança primordial que existe antes do próprio tempo ‒revela precisamente esse “ritmo primordial”, nasce com/dessa dança que é “escuta, aceitação” do peso “da gravidade das coisas”, e, por isso “plural, como o ser.” (Eiras, p. 14). Existe em Sophia, como em Pascoaes, essa “consciência múltipla”, que liga a dança “ao ritmo e à despersonalização” (Santos, p. 18). Em ambos, a dança não é uma metáfora decorativa, “um ornamento extrínseco ao viver da poesia” (Sousa, p. 5).

 Ao contrário do que escreve Farguell, cremos que não há, pelo menos na comparatística portuguesa, muitos estudos interessantes que tenham nascido “com a exigência de compreender a dança como metalinguagem crítica da civilização de uma dada época”. Ou que entre eles sejam mais importantes “aqueles que se confrontaram com a relação entre motivo e metáfora da dança em textos, na medida em que é investigado o modo como o motivo da dança pode ser compreendido como metáfora da sua apresentação” (Farguell, 2001, p. 14).3 Muitos outros aspetos intertextuais e interdiscursivos se podem revelar úteis a quem estuda poesia e/ou dança e/ou pensa sobre muitas coisas somente. Mas também por isso se devem ler livros como este: dão-nos amplas pistas de estudo só porque não vemos neles, depois de os ler, o que com nitidez passámos a precisar de ver.

Notas:
  1. Pascoaes, T. (1987). O Bailado. Lisboa: Assírio e Alvim.
  2. Andresen, S. M. B. (2015). Obra Poética. Porto: Assírio e Alvim.
  3. Farguell, R. W. M. (2001). Figuras da Dança. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, trad. M. Filomena Molder et alii.
Conteúdos Relacionados
CADAVRE-EXQUIS: Homenagem à poesia do acaso VARIAÇÕES 29 Outubro 2019 Escrito por ALUNOS DE ESTÉTICA
Uma imagem de Sophia VARIAÇÕES 29 Outubro 2019 Escrito por NUNO JÚDICE Ó noite, flor
“De olhos bem abertos”: breve evocação de Sophia de Mello Breyner Andresen GRANDE ENTREVISTA 29
Sophia: O que há num nome EDITORIAL 29 Outubro 2019 Escrito por MARIA LUÍSA MALATO
Dignidade na palavra e na sabedoria LEITURAS 29 Outubro 2019 Escrito por GUILHERME D'OLIVEIRA MARTINS

Sophia – um testemunho

29 Outubro 2019

Escrito por PEDRO EIRAS

A minha memória deste poema ficou, intacta, como presa num cristal, numa gota de âmbar.

Eu teria talvez onze ou doze anos, não posso precisar, quando li pela primeira vez um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen. É assim, pelo menos, que lembro, tantos anos depois. Decerto já conhecia outros textos, pelo menos alguns contos para a infância; mas lembro-me, ou julgo que me lembro (ninguém sabe ao certo que passados inventa para si mesmo), de um quarto antigo, velhos móveis, uma luz que nunca mais existiu, um manual escolar. Lembro-me de haver, nesse manual, este poema de «Livro Sexto»:

O Poema
O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê
O poema alguém o dirá
Às searas
Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento
O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento
No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas
(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)
Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas
E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo

No manual havia, claro, outros poemas de outros autores; havia poemas que esqueci, ou penso que esqueci, e poemas que perdi e fui reconhecendo à medida que, nos anos seguintes, os reencontrava. Mas nunca mais esqueci este poema de Sophia. Porque foi muito claro que mim, desde logo, que eu habitava nos lugares de que aqueles versos falavam. Na verdade, pouco sabia de searas; mesmo o mar e o seu rumor eram demasiado próximos da minha infância, demasiado imanentes e eternos para eu reparar neles. Mas já começava a saber o que eram “tardes transparentes”, “tardes lisas”, e sobretudo aquelas “quatro paredes densas / De funda e devorada solidão” em que “Alguém seu próprio ser confund[e] / Com o poema no tempo”.

A minha memória deste poema ficou, intacta, como presa num cristal, numa gota de âmbar. Também eu lia, numa longa tarde ainda de infância (nunca mais as tardes foram tão longas), entre as paredes do meu quarto, sozinho, o poema. E essa forma de solidão era inaugural, tinha um sabor que eu ainda nunca tinha provado: nem eu sabia que era possível estar tão sozinho com um poema, ou que um poema podia ser uma voz que habita o espaço, que diz o nome do espaço, das paredes, do quarto. Eu ainda não sabia que um poema diz os nomes das coisas.

Fabrizio Conti

Mas ia descobrindo tudo isso, atónito, naquele poema próximo e distante, feito de palavras que eu conhecia, mas fundamentalmente misterioso, porque eu ainda ignorava que as palavras se podiam escrever assim, endereçando uma solidão a outra. Sobretudo, fascinavam-me os últimos versos, que aprendi de cor, como nunca tinha aprendido nenhuns – e que volto a repetir: “E entre quatro paredes densas / De funda e devorada solidão / Alguém seu próprio ser confundirá / Com o poema no tempo”. Fascinavam-me irresistivelmente, porque eu mesmo era, ao ler, quem se confundia com o poema: naquele quarto, naquela tarde, perdia-me nos versos – era de mim que o poema falava, eu próprio era a praia onde ele rebentava. E nunca mais me libertei desse sortilégio: agora sei que não existo aquém dos textos lidos e das memórias. Confundi meu próprio ser com os poemas no tempo, e na origem do tempo está este poema, anunciando o meu futuro, um poema que sabia mais de mim do que eu sabia.

Depois, é claro, conheci todos os outros poemas de Sophia, todos os livros, contos, testemunhos, o ensaio sobre a Grécia, o teatro, as cartas. Descobri nos escritos de Sophia outros quartos de “funda e devorada solidão”, habitados pelo tempo e pelo poema. Por exemplo, neste texto em prosa, “Arte Poética III”:

A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar. […] A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.
Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso.

São frases que qualquer leitor de Sophia reconhece, e decerto uma das mais luminosas artes poéticas da autora. Também aqui eu reconhecia uma paisagem familiar: um quarto, o mar, a maçã, a presença das coisas simples. Poderiam ser outros locais e outros objectos, talvez; mas eram estes, imanentes, contingentes, contudo inteiramente claros e certos e definidos, dizendo, cada um deles na sua voz insubstituível, “a própria presença do real”. Arte poética da verdade das coisas, da memória, da consciência mais antiga. Texto sobre um quarto, e a maçã inteira no quarto, e sobre o mar além do quarto: interioridade, exterioridade, o prodígio natural de haver maçã e em breve a descoberta da palavra maçã. Quero dizer: texto sobre a verdade das coisas, sobre a realidade do mar, que existe sem porquê, que existe na sua glória inteira de ser mar, e texto sobre a verdade das palavras, sobre a poesia como “perseguição do real”, poesia gloriosa quando alcança a realidade das coisas do mundo.

Eu lia: tardes longas de leituras, noutro quarto, diferente e semelhante, sem mar, mas submerso pela palavra mar. Se o poema persegue o real e acerta no coração do real, então o mar entrava dentro do quarto. Eu confundia-me com o poema no tempo.

E havia tantos outros quartos, fechados em quatro paredes, círculos à roda de coisas, atravessados por vozes. Como este, em «O Búzio de Cós e outros poemas»:

Goesa

Tudo era atravessado por um rio de memórias
E brisas subtis e lentas se cruzavam
E enquanto lá fora baloiçavam
Os grandes leques verdes das palmeiras
Uma rapariga descalça como bailarina sagrada
Atravessou o quarto leve e lenta
Num silêncio de guitarra dedilhada

Era, outra vez, um quarto perto e distante, semelhante e tão diferente do quarto onde eu lia; um quarto fechado entre paredes, um espaço “dentro” tão distante das palmeiras baloiçando “lá fora” – mas também um quarto atravessado pelo infinito: pelo “rio de memórias”, pelo tempo; por “brisas subtis”; por uma rapariga descalça. E quanto mede um quarto, se a rapariga que o atravessa é “como bailarina sagrada”, se os passos dançados, leves como os dedos sobre as cordas da guitarra, quase levitando, revelam o infinito aberto dentro do finito?

Eu descobria isto em Sophia: que os pés amam a terra, searas, maçãs, ventos, o mar; mas também que os passos dizem a distância ilimitada que há nas coisas, o tempo e o espaço inesgotáveis dentro de um quarto fechado. E tudo falava, agora, entre as paredes “de funda e devorada solidão”: eu habitava em quartos abertos, sobre um mar invisível onde vinham rebentar, verso a verso, as vozes antigas, toda a memória do mundo.

NOTA: O autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

Conteúdos Relacionados
CADAVRE-EXQUIS: Homenagem à poesia do acaso VARIAÇÕES 29 Outubro 2019 Escrito por ALUNOS DE ESTÉTICA
Uma imagem de Sophia VARIAÇÕES 29 Outubro 2019 Escrito por NUNO JÚDICE Ó noite, flor
“De olhos bem abertos”: breve evocação de Sophia de Mello Breyner Andresen GRANDE ENTREVISTA 29
Sophia: O que há num nome EDITORIAL 29 Outubro 2019 Escrito por MARIA LUÍSA MALATO
Dignidade na palavra e na sabedoria LEITURAS 29 Outubro 2019 Escrito por GUILHERME D'OLIVEIRA MARTINS

A Poética de Sophia à luz do Pensamento de Maria Zambrano

29  Outubro 2019

Escrito por TIAGO CABRAL

A necessidade de dar resposta ao diálogo provocado pela obscuridade dá-se numa solidão, não tem explicação e percebemos que não é universal. “De facto, um homem que precisa de poesia precisa dela, não para ornamentar a sua vida, mas sim para viver”. Ter o sentido da poesia é algo que só alguns têm, é uma água que só alguns reconhecem e precisam de beber. 

1. A maravilhosa «Evocação de Sophia» de Alberto Vaz da Silva (2009) abre com três epígrafes: a primeira, de Louis-Claude de Saint-Martin – “Il y a des êtres à travers qui Dieu m’a aimé” –, mostra a amizade como um dom divino, precioso, como se um amigo fosse um enviado de Deus especialmente a nós dirigido. Assim se terá sentido Alberto Vaz da Silva relativamente a Sophia. Depois, a de S. João da Cruz – “Que bien sé yo la fonte que mana y corre, aunque es de noche”. E, por fim, versos de Sophia, do livro «Ilhas» – “Tão nobre espírito/ em tão estreita regra/ Tão vasta liberdade em tão estreita/ Regra” – escritos em memória do Padre Manuel Antunes. As límpidas e enigmáticas palavras do poeta místico espanhol, que alcançou insuspeita das alturas poéticas em busca da “fonte que mana y corre”, sugerem uma relação de parentesco com Sophia. Seria S. João da Cruz um patrono secreto desta poeta, que assumiu para si mesma um destino de uma “tão vasta liberdade em tão estreita/ Regra”? De poucos poetas em português podemos dizer que encarnaram esse destino de modo tão exemplar como Sophia. Se há um desafio que a obra de Sophia nos põe é o de vivermos voltados para a “fonte que mana y corre”, procurando não perder a orientação nesse sentido, aconteça o que acontecer. Não será esse o ofício do poeta, do pensador, do artista? Mas hoje tornou-se difícil entender a razão do poético como uma razão que não precisa de justificações, como uma razão que ocupe um lugar necessário no mundo humano.

A obra de Maria Zambrano, contemporânea da obra de Sophia, debruça-se sobre a origem do poético com singular agudeza e, dada a afinidade entre ambas, recorremos ao pensamento de Zambrano para melhor compreender a «Poética» de Sophia. Sem deixar de apontar sempre o horizonte original que a Grécia Clássica representou, Zambrano seguiu de perto o fazer e refazer da actividade poética ao longo dos tempos, como actividade intimamente relacionada com o sagrado e, por isso, irmã do pensamento filosófico. Esse momento espiritual grego arrebatou com a mesma intensidade tanto a poeta Sophia como a filósofa Maria. Se a poesia de Sophia não dispensa um olhar filosófico sobre o mundo, a filosofia de Zambrano alimenta-se constantemente da actividade poética. Foi pela original luminosidade grega que ambas se sentiram atraídas, pela força dessa luminosidade na luta contra a treva, contra todas as trevas. Ou, como escreveu Sophia: “A claridade grega é uma claridade que reconhece a treva e a enfrenta. A claridade daqueles que interrogam a esfinge e que penetram no labirinto para combater a escuridão e a violência do toiro” (Andresen, 1992, p. 23).

2. Da imensa obra de Maria Zambrano, desse contínuo discorrer sobre o pensamento e sobre o acto poético, desprende-se uma verdade central: a de que a vida humana está condenada ao padecimento do divino. O divino é uma marca, uma vocação, que o humano transporta e da qual não poderá nunca ver-se livre. Para Maria Zambrano, o pensamento filosófico parte como uma luz desde o fundo obscuro da consciência, para vir iluminar a condição deste ser paciente, a condição humana. No mais importante dos seus livros, cujo título é precisamente «O Homem e o Divino», há um capítulo essencial onde a pensadora põe em evidência a luta decisiva que se deu entre filosofia e poesia no seu nascimento na Grécia: “A disputa entre a filosofia e a poesia sobre os deuses”. No obscuro começo, “os deuses, conforme Ortega dizia, apresentavam um vazio de ser que provocou a nostalgia de tudo o que se iria encontrar na ideia de ser” (Zambrano, 1995, p. 59). O confronto humano com esse domínio sagrado dá-se primeiro com a poesia:

A formação dos deuses, a sua revelação pela poesia, foi indispensável, porque foi ela, a poesia, que primeiro enfrentou esse mundo oculto do sagrado. E assim, em parte, a insuficiência dos deuses, resultante da acção poética, deu lugar à atitude filosófica. Mas, por outro lado, vemos que na atitude que a actividade poética supõe, se encontra já o antecedente necessário da atitude que dará origem à filosofia. Como sempre que de uma actividade humana nasce outra diferente, e até contrária, não é só da sua limitação, do que não chegou a alcançar que ela nasce, mas também daquilo que chegou a ser; do seu aspecto negativo unido ao positivo.

Ao procurar iluminar, neste momento original, a resposta humana ao sagrado, Zambrano fá-lo sabendo que aqui se joga a relação do humano com o sagrado, no seu primeiro passo, o nascimento de um novo humano. Esse passo foi dado pela poesia, abrindo caminho a uma resposta mais tardia, a da filosofia.

E assim, a filosofia inicia-se do modo mais antipoético, por uma pergunta. A poesia, essa começa sempre por uma resposta a uma pergunta não formulada. Interrogar-se é próprio do homem, o sinal de que chegou a um momento em que vai separar-se do que o rodeia, qualquer coisa como a ruptura de um amor, como o nascimento. (Zambrano, 1995, p. 60)

Coincidirá o lugar desse nascimento com este lugar descrito no úlitmo poema do primeiro livro de Sophia, «Poesia»?

No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio.
(Andresen, 2011, p. 71)

Temos dois momentos, duas solidões: a do poeta, que na sua solidão perante o sagrado responde criando os deuses, verdadeira revelação poética; e a solidão filosófica, de que nasce a pergunta, a pergunta que pergunta pelas coisas, que quer saber o que elas são.

Solidão um tanto especial; pois mais do que haver solidão há solidões, diferentes. A solidão em que deve ter nascido a pergunta da filosofia parece ser a que surge quando se perderam as imagens e os fantasmas; quando uma imagem com que se viveu na intimidade se desvanece. (Zambrano, 1995, p. 61)

Porque a alma se esvaziou, “perdeu o contacto com as suas imagens familiares e fica como que adormecida sob a actividade da mente que encontra pela primeira vez a sua presa, o seu alimento adequado”. E assim começa um novo momento em que se dá a “inauguração do grande luxo de se interrogar sobre o que até há pouco tempo era inquestionável por não ser aparente, por estar escondido sob as imagens, sob as fábulas”. Ora, sem a actividade poética, era como se o logos não pudesse entrar em actividade, ou seja, nada poderia ser concebido. É o acto poético que surge em primeiro lugar porque é essencialmente resposta, porque ousa rasgar o fundo obscuro do sagrado com a luminosidade da palavra. Primeiro chega o poeta, depois vem o filosófo.

Mas, em compensação destas razões das suas razões o poeta oferecerá o seu próprio ser, suporte do que não consente ser dito, de tudo o que se esconde no silêncio; a palavra da poesia estremecerá sempre sobre o silêncio e só a órbita de um ritmo a poderá sustentar, porque é a música, mais que o logos, que vence o silêncio. E a palavra mais ou menos desprendida do silêncio estará contida numa música. (Zambrano, 1995, p. 62)

O poeta, que arranca a palavra ao silêncio e a põe em música no mundo, dá, com o seu ser, uma razão poética à vida, apontando um caminho.

O poeta aceitará e pretenderá mesmo outro género de responsabilidade que aquela que se oferece a partir da consciência e da claridade das razões; essa responsabilidade sugerida, mais do que na palavra, no gesto da mão que indica uma direcção. Poesia e filosofia serão desde o princípio duas espécies de caminhos que em instantes privilegiados se fundem num só.
Silas Baisch

Zambrano considera que, na Grécia, a contenda teve como vencedor o filósofo. O poeta falava em “nome de uns deuses que não o sustinham” e se o filósofo venceu foi “por causa do seu retrocesso à ignorância”. Ambos pretendiam falar em nome da divindade, mas só a atitude de regresso à ignorância da filosofia permitiu:

[…] fixar o seu olhar numa realidade primordial, original; sagrada, porque oculta e ambígua, porque quase não nomeável. O apeiron, de onde todas as coisas vêm, segundo Anaximandro, fundo obscuro onde a injustiça do ser, de ser algo, se apoiará. Descoberta verdadeira desta ignorância da atitude filosófica. Mas, é preciso ver que se essa ignorância é uma descoberta da atitude filosófica, é também aquilo face ao qual o poeta treme, silencia e fala. (Zambrano, 1995, p. 64)

Apesar de tudo, nascera algo de novo, único. Do seio desta disputa irrompeu uma nova postura da qual o homem não mais poderia prescindir:

E o problema que na Grécia se colocou foi a questão bem decisiva de se seria o poeta ou o filósofo a mandar, dado que não havia realmente sacerdote, profeta encarregado disso, devido à falta de um deus revelado. A contenda tinha de acontecer em termos já meramente humanos, contenda original que assinala a origem do humanismo, desse humanismo que nem durante a cristandade pôde ser silenciado em momento algum e que, diríamos, volta actualmente a apresentar-se como nos dias da Grécia em toda a sua gravidade. (Zambrano, 1995, p. 65)

A origem do humanismo de que nos dá conta Zambrano aponta para uma nova exigência. O humanismo vai exigir a consciência do seu nascimento como a resposta humana perante o sagrado. Doravante será humanista aquele que viver consciente dessa nova exigência.

3. Em «Poesia e Realidade», Sophia esboça o modo como entende ser possível dar poeticamente resposta a essa exigência. Este é um texto que, sendo uma «Poética» se apresenta também como fruto maturado de uma reflexão sobre a origem do acto poético, uma concepção filosófica do acto poético. Diz assim a poeta:

Eu sei que nunca se dirá tudo o que a poesia é. Nenhuma análise, nenhuma teoria explicará o que a torna tão necessária a alguns homens e o que a torna tão indiferente a outros. Aquele que tem o sentido da poesia reconhece-a imediatamente, como aquele que tem sede reconhece a água. Sem necessidade de análise, de conceitos ou de teorias. Mas aquele que não tem o sentido da poesia não reconhece nunca, por maior que seja a sua cultura e por mais vasta que seja a sua informação. Nenhum sistema de filosofia, nenhum tratado de estética pode ensinar a distinguir um poema verdadeiro dum falso poema.

A necessidade de dar resposta ao diálogo provocado pela obscuridade dá-se numa solidão, não tem explicação e percebemos que não é universal. “De facto, um homem que precisa de poesia precisa dela, não para ornamentar a sua vida, mas sim para viver”. Ter o sentido da poesia é algo que só alguns têm, é uma água que só alguns reconhecem e precisam de beber. Um pouco adiante a poeta distingue três sentidos para a palavra poesia:

A palavra poesia é usada em três sentidos: Chamamos poesia à Poesia em si, independente do homem. Chamamos poesia à relação do homem com a Poesia do Universo. E chamamos poesia à linguagem da poesia, isto é, ao poema. Para tornar claro o que vou dizer, chamarei Poesia à poesia em si, poesia à relação do homem com a Poesia e poema à linguagem da poesia.

Ou seja, Poesia, com maiúscula, é um Algo maior que o homem, que está para além dele, o que em filosofia se costuma designar por Metafísica. Mas é através da poesia, no segundo sentido atribuído por Sophia, que o homem entra em relação com esse Algo, a Poesia.

Pois a Poesia é a própria existência das coisas em si, como realidade inteira, independente daquele que a conhece. Porque não somos nós que criamos o mundo. Se o poeta procura tanto a solidão, não é só para fugir ao rumor e à agitação, mas também para ver as coisas, quando elas estão sozinhas. A emoção que sentimos ao entrar numa casa deserta ou num jardim abandonado, é a emoção da vermos como as coisas sem nós existem, na sua própria realidade, em si. É com esse em si que o poeta quer entrar em relação.

A poesia foi para Sophia esse modo de viver desperto e vigilante, exigentíssimo modo de viver atento ao Real, de não perder nunca o contacto com a realidade das coisas.

A poesia é a relação do homem com a Poesia. Ou melhor: a poesia é a relação pura do homem com as coisas. Isto é: uma relação do homem com a realidade, tomando-a na sua pura existência. O poeta é aquele que vive com as coisas, que está atento ao Real, que sabe que as coisas existem.

E dados estes passos na clarificação do papel do poeta perante o Real, a poeta vai assumir a radical diferença que existe entre ser e conhecer:

Esta relação com a realidade é essencialmente encontro e não conhecimento. A atitude do homem de ciência perante a Realidade é igual à atitude dum anatomista perante um corpo morto que ele estuda e analisa. A atitude do poeta perante a Realidade é igual à atitude do amante perante um corpo vivo com o qual ele se encontra, vive, se une e se confunde. A poesia só é conhecimento por consequência, isto é, na medida em que de todo o encontro nasce necessariamente conhecimento. O poeta não tem curiosidade do Real, mas sim necessidade do Real. A verdadeira ânsia dos poetas é uma ânsia de fusão e de unificação com as coisas. […] Mas por mais real que seja o encontro, nunca é total; por mais funda que seja a união, nunca é absoluta. A relação do homem com as coisas nunca é uma túnica sem costura. Há sempre uma lacuna. Essa lacuna o poeta leva-a como uma ferida na sua carne ou, como diz Hölderlin, como um espinho no seu peito.

É desta impossibilidade de fusão total com o Real que nasce o poema. O poema, em si, não é mais do que a ponte entre o poeta e o Real, ou melhor, os restos que ficam dessa ponte que o poeta lança entre si e o Real.

A Poesia e a poesia não são criação. São realidade e vivência. Porém o poema é criação, é um objecto a mais no mundo, uma realidade entre as realidades. Mas a finalidade do poeta não é acrescentar objectos à natureza. O mundo não precisa nem de retratos que o repitam nem de ornamentos que o enfeitem. O poema aparece, porque é necessário à existência do poeta.

A obra do poeta nasce de uma humildade suprema, da consciência de impotência na fusão com a realidade. Os poemas são o resto que fica desse amor, como despojos de um acto amoroso cuja consumação não poderá dar-se nunca:

O poema aparece como um medianeiro. Aparece ao lado da lacuna, que impede a união absoluta com a Poesia. É uma forma de tornar total o que estava incompleto. Não podendo fundir totalmente a sua vida com a existência das coisas, o poeta cria um objecto em que as coisas lhe aparecem transformadas em existência sua. […] Não podendo atingir a união absoluta com a Realidade, o poeta faz o poema onde o seu ser e a Realidade estão indissoluvelmente unidos. Por isso o poema é o selo da aliança do homem com as coisas.

E, no limiar da fusão com a realidade, Sophia, verdadeira poeta que procurou sem descanso a “fonte que mana y corre”, pode testemunhar com S. João da Cruz:

Mi alma se a empleado,
y todo mi caudal, en su servicio;
ya no guardo ganado,
ni ya tengo otro officio,
que ya sólo en amar es mi exercicio.
 (S. João da Cruz, Cântico Espiritual)

NOTA: O autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

Bibliografia
Andresen, S. M. B. (1960). “Poesia e Realidade”, in Colóquio – Revista de Artes e Letras, n.º8. Disponível em: <https://www.snpcultura.org/id_poesia_e_realidade.html> [consultado em 19/03/2019].
— (1992). O Nu na Antiguidade Clássica. Lisboa: Editorial Caminho.
— (2011). Obra Poética. Lisboa: Editorial Caminho.
Silva, A. V. (2009). Evocação de Sophia. Lisboa: Assírio e Alvim.
Zambrano, M. (1995). O Homem e o Divino. Lisboa: Relógio D’Água.
— (2000). A Metáfora do Coração e outros escritos. Lisboa: Assírio e Alvim.
Conteúdos Relacionados
Uma imagem de Sophia VARIAÇÕES 29 Outubro 2019 Escrito por NUNO JÚDICE Ó noite, flor
“De olhos bem abertos”: breve evocação de Sophia de Mello Breyner Andresen GRANDE ENTREVISTA 29
Sophia: O que há num nome EDITORIAL 29 Outubro 2019 Escrito por MARIA LUÍSA MALATO
Dignidade na palavra e na sabedoria LEITURAS 29 Outubro 2019 Escrito por GUILHERME D'OLIVEIRA MARTINS
Sophia e a dança LEITURAS 29 Outubro 2019 Escrito por MARIA JOSÉ MAGALHÃES DA SILVA

O Dom Interrompido: uma leitura do conto «O jantar do bispo», de Sophia de Mello Breyner Andresen

29 Outubro 2019

Escrito por NUNO HIGINO

Sophia afirma: “Isto [o facto de dar tudo e se identificar com a extrema pobreza do seu povo] desafiava o uso, o costume. Já nem era virtude: era desordem, anormalidade, bolchevismo”.

Sobre a natureza do círculo

«O jantar do bispo» é um conto clarividente e, por isso, de complexa interpretação. Há diversos círculos que se constroem aparentemente de forma isolada, mas que, com o decorrer da história, se vão tocar (e interromper) de forma decisiva.

O primeiro círculo é desenhado pelo Dono da Casa e pelo Bispo: eles têm assuntos a tratar. E assuntos sérios. O Bispo precisa dum telhado novo para a igreja da Esperança. O Dono da Casa precisa de afastar para longe o novo pároco de Varzim. Se este círculo não fosse quebrado, a sua economia resultaria simples: o Dono da Casa daria o dinheiro para compor o telhado e o Bispo afastaria o novo pároco.

O segundo círculo é traçado pelo Senhor Importante que irrompe intempestivamente na casa e na história. A sua linha parece traçar-se de forma concêntrica em relação ao primeiro, não sei se pelo dado interior (inferior), se pelo lado exterior (superior). Também neste caso a economia do círculo parece previsível: o Senhor Importante apoia a pretensão do Dono da Casa, contribui com a sua parte para o restauro do telhado, e o pobre pároco de Varzim será afastado.

O terceiro círculo é traçado pelo pobre que bate à porta durante o jantar, no meio duma grande trovoada, pormenor relevante. A economia do círculo é igualmente previsível: a sopa é-lhe servida, apesar da azáfama na cozinha e apesar de não ser sábado, o dia destinado a acolher os pobres, segundo uma antiga tradição da casa.

O quarto círculo é traçado pela velha Joana e por João, o filho do Dono da Casa. A economia deste círculo é um pouco mais complexa, mas também previsível no seu desfecho: os dois manifestam vontade de convencer o Dono da Casa a receber o pobre: o filho, de viva voz, a velha criada na intenção (por ser demasiado velha, não pode subir a escada para interceder junto dele).

A linha dos quatro círculos é quebrada: no primeiro, o Bispo recusa a oferta do Dono da Casa; no segundo, o Senhor Importante, sem nome, e o seu cheque desaparecem; no terceiro, o pobre recusa a sopa e, mais tarde, desaparece quando o Bispo o encontra na estrada e o convida a entrar no carro; no último círculo, João e a velha Joana vêem recusada a sua pretensão junto do Dono da Casa.

Sobre a economia do círculo

Em nenhum dos casos, portanto, o desfecho é o previsível, porque em todos eles o círculo é quebrado e resolvido fora da lógica. Vamos acompanhar essa (i)resolução cruzando a história de Sophia com um texto de Jacques Derrida intitulado «O tempo do Rei».1

«O tempo do Rei» é um texto sobre o tempo e sobre o dom e começa com o excerto duma carta: “O Rei toma todo o meu tempo; dou o resto a Saint-Cyr, a quem quereria dá-lo todo”. A frase é dirigida a Madame Brinon e escrita por Madame Maintenon, esposa secreta do rei Luís XIV. Saint-Cyr, criada em 1684, era uma instituição dedicada à educação de raparigas nobres empobrecidas. Dar todo o tempo ao Rei e o resto a Saint-Cyr é uma contradição. Se o tempo fosse dado ao Rei na totalidade, nada restaria para Saint-Cyr porque a totalidade tudo absorve. Na verdade, ela não dá todo o tempo ao Rei, dá-lhe uma parte, a maior parte. O pouco que lhe resta, dá-o a Saint- Cyr. Mas não é isso que diz Madame Maintenon. Sabemos que uma das condições do discurso, de qualquer discurso, é a falta de coincidência entre o dito e a coisa referida no dizer. O que dizemos supõe, na sua origem, um desencaixe com a realidade, pois nunca existe coincidência perfeita entre uma coisa e outra, mesmos nos juízos perceptivos mais comuns. Se houvesse um encaixe perfeito não haveria linguagem, pura e simplesmente, pois a possibilidade da linguagem fundamenta-se na sua diferença com a realidade. E esse desajuste não se verifica apenas em relação ao referente (a realidade), mas também em relação ao contexto e ao próprio emissor. Todos nós sabemos, por senso comum, o que Madame Maintenon quer dizer, mas o que ela diz é efectivamente diferente do que ela quer dizer. É “uma maneira de dizer”, dizemos na linguagem comum… Se não existisse esta diferença, haveria apenas a maneira de dizer. Sem o salto que permite a linguagem, a interpretação estaria necessariamente proibida.

Qualquer reflexão sobre o tempo e o dom não pode dissociar-se dos artifícios da linguagem e das suas infinitas possibilidades de sentido. O sentido do que dizemos advém mais da ausência do que da presença: ausência do sujeito em relação a si mesmo, aos outros e à realidade.

O desaparecimento do Senhor Importante (e do seu cheque) e do pobre enviado pelo padre de Varzim mostram de forma absolutamente clarividente os caminhos obscuros da linguagem. Um e outro desaparecem na noite. Depois da argumentação de um e de outro, depois da extinção da linguagem, desaparecem. Aliás, tudo no conto de Sophia se passa à noite. Os discursos mais relevantes do conto, nomeadamente o do Senhor Importante em favor dos argumentos do Dono da Casa e o discurso entrecortado e quase aforístico da velha Joana em favor do pobre, são contundentes, cada um à sua maneira, como já veremos, e, no entanto, esgotam-se, um e outro, no vazio, como se fossem engolidos pela escuridão daquela noite onde tudo escapa à lógica. Seria muito interessante analisar o tipo de discurso do Senhor Importante a sustentar a intenção do Dono da Casa (nenhum deles tem um nome próprio) e o da velha Joana (esta, sim, apesar de socialmente menos importante, tem nome). No primeiro caso, trata-se dum discurso sistemático, ordenado, com uma intenção e um objectivo bem identificados. O Senhor Importante sabe o que diz e o que quer dizer. E sabe o que pretende atingir. É um discurso coerente, lógico, metódico e, em teoria, eficiente. Pelo contrário, a velha Joana diz coisas desarticuladas, entrecortadas, interrompidas, misteriosas. Não se sabe muito bem o que ela quer dizer. O seu discurso, ao contrário do discurso do Senhor Importante, não é clarividente. “Ai os pobres! Há sempre uma razão para lhes dizerem que não…”.2 Ao contrário de Gertrudes, que não vê mais além daquele pobre que lhe suja a cozinha com as suas pegadas lamacentas, Joana faz uma transposição para a pobreza universal. A partir da pobreza particular, ela invoca a pobreza universal porque tem um sentido moral da pobreza. Aliás, a resposta do padre de Varzim ao Dono da Casa, logo no início do conto, anunciara já esta transposição de Joana: “Da nossa própria fome podemos dizer que é um problema material e prático. A fome dos outros é um problema moral”.3 Para aquele pobre havia uma razão plausível para lhe dizer que não: não era o dia de atendimento aos pobres e o Dono da Casa estava com visitas muito importantes, não era conveniente interrompê-lo. Aquele pobre era um intruso, um curto-circuito na ordem, nos procedimentos e costumes, no asseio da casa. A luz eléctrica apagou-se e, dentro da ordem da casa, é introduzida a desordem. Joana sabe que “a trovoada está em cima de nós”.4 É por ter esta consciência que ela vai do meteorológico ao sobrenatural (“Valha-nos Santa Bárbara!”), do pobre à pobreza, da regra à excepção, da virtude ao dom. Joana é a consciência moral daquela noite de intriga e de cegueira. Ela, pela sabedoria dos anos, e o pequeno João pela sua inocência. Ela tem o dom de introduzir dentro do natural a dimensão sobrenatural, como nos quadros de El Greco, segundo a alusão feita justamente por D. António Ferreira Gomes no texto introdutório aos contos de Sophia5: não como duas dimensões acopladas, mas como elementos íntimos duma só dimensão. Isto é, a realidade não é natural por um lado e sobrenatural por outro, mas é natural e sobrenatural ao mesmo tempo e dentro da mesma massa. Onde os outros viram um pobre no meio duma trovoada, inoportuno, Joana viu a pobreza, e nela a mentira duma ordem carcomida pelo seu próprio virtuosismo, sem possibilidade de redenção. O Magnificat que ela reza e, a certa altura, interrompe por já não se lembrar do resto, é a única palavra certa no meio da vozearia daquela noite. É o pobre que completa o que Joana esqueceu. Ou talvez não tenha esquecido. Não terá sido tanto um esquecimento, mas a passagem da palavra à única pessoa que, dentro daquela casa, de direito, a podia pronunciar. O Magnificat produz sobre aquelas figuras o mesmo efeito procurado por El Greco nas suas telas: alonga, sobrenaturaliza. Joana é que pinta, é que faz as ligações entre aquilo que, aos olhos dos outros, aparece desconexo e incompreensível. Ela não estranha que o pobre não tenha comido a sopa que lhe foi colocada na mesa por Gertrudes. Ele tinha fome, com certeza, mas o que o trazia ali não era a fome. A sua aparição naquela noite estava para além da fome. A sua missão era interromper o que estava a ser urdido na sala de cima. Se ele tivesse comido a sopa e seguisse o seu caminho, ratificaria a lógica do Dono da Casa e do Senhor Importante. A sopa torná-lo-ia visível e previsível no meio da cegueira. E por isso ele se torna invisível, desaparece, quando o bispo baixa do automóvel para o levar de volta a Varzim. Ele não era um pobre que se dirigia para Varzim. Ele era a pobreza sem pátria.

Sobre o rompimento do círculo

A leitura económica deste conto faz todo o sentido. Há uma lei (nomos) que rege a circulação material, ética e costumeira da casa (oikos) do Dono da Casa. Ele é verdadeiramente o Dono da casa e da economia da casa. Ele tem a autoridade da distribuição e da repartição. Ele põe e dispõe dos bens, dos serviços e das regras da casa. Tudo em casa obedece a uma ordem e todos têm dentro dela um papel e uma responsabilidade. Como num círculo. Neste esquema circular, a norma de circulação é o retorno, o regresso ao ponto de partida. Jacques Derrida, no texto referido, fala duma estrutura odisseica de todos os relatos que obedecem a uma lógica económica: “A oikonomia tomaria sempre o caminho de Ulisses. Ele não se afasta senão com a intenção de repatriar-se para, depois, regressar ao lar…”.6 O pobre não regressa a casa que, provavelmente, não tem. O pobre não regressa, em absoluto. O pobre rompe o círculo económico minuciosamente desenhado ao longo de séculos e escrupulosamente preservado pelo Dono da Casa. O pobre desaparece, interrompe o círculo. Salta-o. Fractura-o. O pobre desconjunta o tempo, faz com que o tempo, como um velho portão, salte fora dos gonzos que lhe permitem abrir e fechar com eficiência, regularidade e ordem. Deixa de haver circulação dentro deste modelo económico. A lógica circular do dom é interrompida. Se o pobre tivesse aceitado a sopa e regressasse a casa saciado e agradecido, tudo continuaria normalizado. De facto, na nossa lógica corrente, entendemos o dom como uma conjugação tripartida: alguém (A) dá alguma coisa (B) a outro (C). O Dono da Casa (A) dá a sopa (B) ao pobre (C). Estes 3 elementos tendem a identificar-se, ou mesmo fundir-se, para que haja dom. O problema, seguindo esta lógica, e ainda na interpretação de Derrida, é que as condições de possibilidade do dom (esta estrutura ternária) se tornam, simultaneamente, nas suas condições de impossibilidade, no sentido em que anulam, aniquilam e destroem o próprio dom: “Para que haja dom é preciso que não haja reciprocidade, nem devolução, nem intercâmbio, nem contra-dom, nem dívida”.7 Pode perguntar-se: o que pedia o Dono da Casa ao pobre a troco da sopa, uma vez que este nada tinha para lhe dar? Aparentemente não lhe pedia nada, nada lhe exigia, pois ele nada tinha para retribuir. Mas esta é uma interpretação ingénua e que não faz justiça, de maneira alguma, ao conto de Sophia. É evidente que o Dono da Casa exige ao pobre um pesado contra-dom: exige-lhe que continue a ser pobre. As palavras do Homem Importante durante o jantar são esclarecedoras: “Os homens não querem aceitar. Paciência e resignação são palavras que perderam o sentido”.8 O “pecado da revolta” é o maior dos pecados para esta economia circular, sossegada, submissa e dominada por uma autoridade ancestral e indiscutida. Foi esta ordem que o padre de Varzim veio perturbar e ameaçar. E a sua atitude chocava o Dono da Casa “como uma traição”. Ele tomara o partido dos pobres e abalara as classificações da pobreza. Para o Dono da Casa, pobres eram os de fora ou aqueles que, na terra, fossem reconhecidos como tal. “Mas o Pedro da Serra que tinha nove filhos e ganhava quinze mil réis por dia a cavar pedregulhos, esse não era um verdadeiro pobre pois tinha um salário e dois braços”.9 Uma pobreza classificada é fácil de controlar e resolver com um prato de sopa e a esmola semanal. O problema é o Pedro da Serra e outros como ele, que não cabem numa classificação. São inclassificados. São linhas que interrompem o círculo e geram desordem. São um incómodo.

Sobre a superação do círculo

Dar uma sopa ou dar um cheque para compor o telhado da igreja da Esperança significa exactamente o mesmo dentro desta análise do dom. Exige contrapartidas. E avultadas. Exige o sacrifício dos pobres, sejam os pobres classificados, seja a pobreza do Pedro da Serra, seja o pobre padre de Varzim. Sophia interrompe o dom, num e noutro caso. Não podia ser doutra maneira. Neste conto, o único dom que não é interrompido, e que verdadeiramente pode ser tomado como tal, é o dom do padre de Varzim. Toda a história gira à sua volta, apesar de ele ser apenas mencionado e, em pessoa, só aparecer numa fala, aliás, uma fala tremenda de justiça e sabedoria e já aqui citada (“Da nossa própria fome, podemos dizer que é um problema material e prático. A fome dos outros é um problema moral”). Todo o mundo do Dono da Casa é desmontado por esta frase. “Ora, ele [Dono da Casa] teve notícia de que os frangos, as nozes, as uvas e as peras que era seu costume mandar aos sucessivos abades de Varzim em datas regulares, agora, em vez de seguirem o seu destino, que era a mesa do abade, eram distribuídos pela negra fome de Varzim. Soube também que o padre dava as couves da sua horta e as uvas da sua parreira. Dava mesmo o leite da sua cabra. Dava tudo”.10 O único dom que tem condições para verdadeiramente o ser, é o dom do padre de Varzim: “Dava tudo”. Tal como Madame Maintenon, que dava todo o seu tempo ao Rei, o padre de Varzim “dava tudo” à “negra fome de Varzim”. Este “dar tudo”, num e noutro caso, e como foi dito no início, é uma espécie de suplemento nutritivo da linguagem que a leva a dizer o impossível. De facto, tal como Madame Maintenon não dava todo o seu tempo ao Rei, também o padre de Varzim não dava tudo, mas dava a maior parte das coisas. Mas existe uma diferença abismal entre o dom de Maintenon e o do padre de Varzim: no primeiro caso, ela dá apenas o resto a Saint-Cyr quando, na verdade, queria dá-lo todo. O tempo que ela dava ao Rei não era propriamente um dom, pois o Rei é que lhe tomava todo o seu tempo. No segundo caso, o abade de Varzim dava tudo aos pobres e ficava apenas com o resto, o estritamente necessário para a sua subsistência. O dom não é uma questão de quantidade. O dom tanto pode ser o todo como o resto. A sua verdade não se centra na quantidade, mas na qualidade.

A doação para o telhado da igreja ou a oferta da sopa ao pobre de Varzim são um simulacro: conservam a aparência de dom, mas negam-na nas contrapartidas que exigem. “O dom pode conservar a sua fenomenalidade, ou se preferirmos, a sua aparência de dom, mas a própria aparência, o simples fenómeno do dom anula-o como dom, transformando a aparição em fantasma e a operação em simulacro”.11 Mas aquilo que dava o padre de Varzim – as couves da sua horta e as uvas da parreira, etc. – também não era suficiente para qualificar o seu acto como dom. Para que o dom seja anulado basta o reconhecimento ou a gratidão de quem recebe. E essa gratidão ele tinha seguramente. Aquilo que estará mais próximo de o qualificar como dom é o dom de si mesmo, da sua vida, a sua identificação com a miséria dos seus paroquianos. Isso que não tem visibilidade prática nem se pode quantificar. Mas pode dizer-se que isso – e, porventura, sobretudo isso – também recebia o reconhecimento e a gratidão. No entanto, esta doação sem condições do padre de Varzim está mais próxima das condições requeridas pelo dom: o esquecimento, a inaparência, a não fenomenalidade, a não percepção, a não retenção.12 O esquecimento absoluto, o corte radical entre o dom e qualquer forma de reconhecimento, consciente ou inconsciente, é o único caminho possível para a impossibilidade do dom. Esse é o double bind do dom, segundo Derrida: “Para que haja dom é necessário que o dom não apareça sequer, que não seja percebido como dom”.13

Há um comentário que Sophia faz, depois de descrever a generosidade infinita da padre de Varzim, que talvez se encontre, neste limite, com aquilo que Derrida pretende significar com a sua afirmação da impossibilidade do dom. Sophia afirma: “Isto [o facto de dar tudo e se identificar com a extrema pobreza do seu povo] desafiava o uso, o costume. Já nem era virtude: era desordem, anormalidade, bolchevismo”.14 Isso, que era e que fazia o padre de Varzim, já não era virtude, era desordem. Estava para além da virtude, daquilo que pode ser reconhecido e exaltado. Estava para além da ordem e da norma social. Estava para além de qualquer classificação. A virtude demarca, sinaliza, requer o exemplo, a admiração e o seguimento. O dom não é algo que possa ser entendido dentro da lógica dos sujeitos e dos objectos, duma economia circular que tudo explica e compreende. O padre de Varzim deslocou-se para um âmbito difícil de situar. Tornou-se num lugar mal situado, usando o conhecido verso de Daniel Faria, um lugar anterior à consciência ou à inconsciência. Ele introduziu uma desordem dentro da ordem social e moral de Varzim. A estranheza do Dono da Casa conhecêmo-la e reconhecêmo-la como lógica. Não podia ser doutra forma. O padre de Varzim desconstruiu uma determinada forma de as pessoas se relacionarem socialmente. Ele desconstruiu uma ordem. E talvez seja isso, precisamente, que faz o dom: desconstrói uma ordem. O dom, se existe e quando existe, não cede, não aparece, e, no entanto, devemos ocupar-nos dele, devemos prestar contas sobre ele.

NOTA: O autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.


Notas:
  1. Derrida, J. (1995). Dar (el) tiempo: I. La moneda falsa. Barcelona: Paidós, pp. 11-40 & Derrida, J. (1991). Donner le temps. I. La fausse monnaie. Paris: Galilée.
  2. Andresen, S. M. B. (1997). Contos exemplares. Porto: Figueirinhas, 32.ª ed., p. 76.
  3. Idem, p. 50.
  4. Idem, p. 77.
  5. Gomes, A. F. (1997). “Pórtico”, cit., p. 43.
  6. Derrida op. cit., 16-17.
  7. Idem, p. 21.
  8. Andresen, op. cit., p. 65.
  9. Idem, p. 53.
  10. Idem, p. 52.
  11. Derrida, op. cit., p. 23.
  12. Idem, p. 24.
  13. Idem, p. 25.
  14. Andresen, op. cit., p. 52
Conteúdos Relacionados
CADAVRE-EXQUIS: Homenagem à poesia do acaso VARIAÇÕES 29 Outubro 2019 Escrito por ALUNOS DE ESTÉTICA
Uma imagem de Sophia VARIAÇÕES 29 Outubro 2019 Escrito por NUNO JÚDICE Ó noite, flor
“De olhos bem abertos”: breve evocação de Sophia de Mello Breyner Andresen GRANDE ENTREVISTA 29
Sophia: O que há num nome EDITORIAL 29 Outubro 2019 Escrito por MARIA LUÍSA MALATO
Dignidade na palavra e na sabedoria LEITURAS 29 Outubro 2019 Escrito por GUILHERME D'OLIVEIRA MARTINS