Sophia – um testemunho

Sophia – um testemunho

29 Outubro 2019

Escrito por PEDRO EIRAS

A minha memória deste poema ficou, intacta, como presa num cristal, numa gota de âmbar.

Eu teria talvez onze ou doze anos, não posso precisar, quando li pela primeira vez um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen. É assim, pelo menos, que lembro, tantos anos depois. Decerto já conhecia outros textos, pelo menos alguns contos para a infância; mas lembro-me, ou julgo que me lembro (ninguém sabe ao certo que passados inventa para si mesmo), de um quarto antigo, velhos móveis, uma luz que nunca mais existiu, um manual escolar. Lembro-me de haver, nesse manual, este poema de «Livro Sexto»:

O Poema
O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê
O poema alguém o dirá
Às searas
Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento
O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento
No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas
(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)
Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas
E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo

No manual havia, claro, outros poemas de outros autores; havia poemas que esqueci, ou penso que esqueci, e poemas que perdi e fui reconhecendo à medida que, nos anos seguintes, os reencontrava. Mas nunca mais esqueci este poema de Sophia. Porque foi muito claro que mim, desde logo, que eu habitava nos lugares de que aqueles versos falavam. Na verdade, pouco sabia de searas; mesmo o mar e o seu rumor eram demasiado próximos da minha infância, demasiado imanentes e eternos para eu reparar neles. Mas já começava a saber o que eram “tardes transparentes”, “tardes lisas”, e sobretudo aquelas “quatro paredes densas / De funda e devorada solidão” em que “Alguém seu próprio ser confund[e] / Com o poema no tempo”.

A minha memória deste poema ficou, intacta, como presa num cristal, numa gota de âmbar. Também eu lia, numa longa tarde ainda de infância (nunca mais as tardes foram tão longas), entre as paredes do meu quarto, sozinho, o poema. E essa forma de solidão era inaugural, tinha um sabor que eu ainda nunca tinha provado: nem eu sabia que era possível estar tão sozinho com um poema, ou que um poema podia ser uma voz que habita o espaço, que diz o nome do espaço, das paredes, do quarto. Eu ainda não sabia que um poema diz os nomes das coisas.

Fabrizio Conti

Mas ia descobrindo tudo isso, atónito, naquele poema próximo e distante, feito de palavras que eu conhecia, mas fundamentalmente misterioso, porque eu ainda ignorava que as palavras se podiam escrever assim, endereçando uma solidão a outra. Sobretudo, fascinavam-me os últimos versos, que aprendi de cor, como nunca tinha aprendido nenhuns – e que volto a repetir: “E entre quatro paredes densas / De funda e devorada solidão / Alguém seu próprio ser confundirá / Com o poema no tempo”. Fascinavam-me irresistivelmente, porque eu mesmo era, ao ler, quem se confundia com o poema: naquele quarto, naquela tarde, perdia-me nos versos – era de mim que o poema falava, eu próprio era a praia onde ele rebentava. E nunca mais me libertei desse sortilégio: agora sei que não existo aquém dos textos lidos e das memórias. Confundi meu próprio ser com os poemas no tempo, e na origem do tempo está este poema, anunciando o meu futuro, um poema que sabia mais de mim do que eu sabia.

Depois, é claro, conheci todos os outros poemas de Sophia, todos os livros, contos, testemunhos, o ensaio sobre a Grécia, o teatro, as cartas. Descobri nos escritos de Sophia outros quartos de “funda e devorada solidão”, habitados pelo tempo e pelo poema. Por exemplo, neste texto em prosa, “Arte Poética III”:

A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar. […] A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.
Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso.

São frases que qualquer leitor de Sophia reconhece, e decerto uma das mais luminosas artes poéticas da autora. Também aqui eu reconhecia uma paisagem familiar: um quarto, o mar, a maçã, a presença das coisas simples. Poderiam ser outros locais e outros objectos, talvez; mas eram estes, imanentes, contingentes, contudo inteiramente claros e certos e definidos, dizendo, cada um deles na sua voz insubstituível, “a própria presença do real”. Arte poética da verdade das coisas, da memória, da consciência mais antiga. Texto sobre um quarto, e a maçã inteira no quarto, e sobre o mar além do quarto: interioridade, exterioridade, o prodígio natural de haver maçã e em breve a descoberta da palavra maçã. Quero dizer: texto sobre a verdade das coisas, sobre a realidade do mar, que existe sem porquê, que existe na sua glória inteira de ser mar, e texto sobre a verdade das palavras, sobre a poesia como “perseguição do real”, poesia gloriosa quando alcança a realidade das coisas do mundo.

Eu lia: tardes longas de leituras, noutro quarto, diferente e semelhante, sem mar, mas submerso pela palavra mar. Se o poema persegue o real e acerta no coração do real, então o mar entrava dentro do quarto. Eu confundia-me com o poema no tempo.

E havia tantos outros quartos, fechados em quatro paredes, círculos à roda de coisas, atravessados por vozes. Como este, em «O Búzio de Cós e outros poemas»:

Goesa

Tudo era atravessado por um rio de memórias
E brisas subtis e lentas se cruzavam
E enquanto lá fora baloiçavam
Os grandes leques verdes das palmeiras
Uma rapariga descalça como bailarina sagrada
Atravessou o quarto leve e lenta
Num silêncio de guitarra dedilhada

Era, outra vez, um quarto perto e distante, semelhante e tão diferente do quarto onde eu lia; um quarto fechado entre paredes, um espaço “dentro” tão distante das palmeiras baloiçando “lá fora” – mas também um quarto atravessado pelo infinito: pelo “rio de memórias”, pelo tempo; por “brisas subtis”; por uma rapariga descalça. E quanto mede um quarto, se a rapariga que o atravessa é “como bailarina sagrada”, se os passos dançados, leves como os dedos sobre as cordas da guitarra, quase levitando, revelam o infinito aberto dentro do finito?

Eu descobria isto em Sophia: que os pés amam a terra, searas, maçãs, ventos, o mar; mas também que os passos dizem a distância ilimitada que há nas coisas, o tempo e o espaço inesgotáveis dentro de um quarto fechado. E tudo falava, agora, entre as paredes “de funda e devorada solidão”: eu habitava em quartos abertos, sobre um mar invisível onde vinham rebentar, verso a verso, as vozes antigas, toda a memória do mundo.

NOTA: O autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

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