Sophia: O que há num nome

Sophia: O que há num nome

29 Outubro 2019

Escrito por MARIA LUÍSA MALATO

Aquilo a que chamamos rosa, mesmo com outro nome, teria igual perfume?

What’s in a name?”, o que é que há afinal num nome? Aquilo a que chamamos rosa, mesmo com outro nome, teria igual perfume? É a partir de 1954 que, na capa de «No tempo dividido», aparece pela primeira vez a assinatura de Sophia, mantida a partir de então. Com efeito, em «Poesia» (1944), «Dia do Mar» (1947) e «Coral» (1950), a autora tinha assinado os seus livros com a grafia simplificada pelo acordo: Sofia.

Em janeiro de 1960, Sophia de Mello Breyner escreveria a Jorge de Sena sobre um crescente compromisso com o seu tempo, que ela data do tempo em que concluiu «O Cristo Cigano». O crescente compromisso é paradoxal: anda a par com um acolhimento involuntário:

Estou muito dispersa mas às vezes não sei como escrevo “uma coisa” muito construída em que não tinha quase pensado. Foi assim que acabei «O Cristo Cigano». Lembra-se? Está pronto, nem sei como. É diferente das minhas outras coisas. O mundo da «Poesia», do «Dia do Mar», do «Coral» morreu e o mundo do «Mar Novo» foi ultrapassado. Porque é que escrevo versos? Aliás agora não faço versos como dantes. Faço “uma coisa” (Correspondência, 2010, pp. 33-4).

Pode o nome “Sophia” ler-se então como um arcaísmo, forma antiga de um passado nostálgico? É ele nostalgia de uma idade do ouro, exemplificada pelas referências à mitologia helénica? Ou a reivindicação de uma cultura europeia que não seja estranha ao sensível quando se dedica ao pensamento especulativo? Sophia critica um verso de Jorge de Sena que vê na Grécia “um passado revoluto, extinto e depilado” (carta de 18/11/1969). Nietzsche (como Sophia de Mello Breyner?) acha significativo que a história da Filosofia tenha aparentemente começado com essa ideia pré-socrática, atribuída a Tales de Mileto, de que tudo teria origem na água. Heidegger interroga-se, ao analisar os hinos de Hölderlin, que sentido podem fazer as alusões aos “bem-aventurados” gregos: “Não a eles…”? Também nós nos perguntamos sobre o significado de um arcaísmo? Até que ponto, na obra de Sophia de Mello Breyner, persistem leituras da filosofia de Nietzsche ou Heidegger e uma consequente suspeição do pensamento platónico, que opõe a perfeição do mundo das ideias à ilusão do mundo sensível? A que sabedoria, antiga ou nova, fará o seu nome referência? Não é este seu nome (ainda) um persistente “amor à sabedoria”? Do pensamento dos gregos antigos realça aquela “veemência como a das cigarras a cantar no calor de Delphos. De qualquer maneira, sinto-me muito heideggeriana” (Sophia a Jorge de Sena, em carta de 18/11/1969).

1. Não são abundantes textos de Sophia que nos permitam legitimar uma “Filosofia”. Se a filosofia demonstra e a poesia mostra, Sophia sempre escolheu mostrar-nos e sempre evitou demonstrar-nos. Se a sua obra é impensável sem a ideia de “testemunho”, “compromisso” e “ação”, ela parece centrar-se numa coerência que dispensa a lógica e se justifica com o sentimento. A própria justiça, o ato de dar a cada um o que é seu, se afasta de uma ética que mede o que é de cada um para se confundir “com aquele amor que, segundo Dante, move o sol e outros astros”. Tudo se envolve em sentimento: o pensamento, a palavra, o ato e as suas omissões. “Se em frente do esplendor do mundo nos alegramos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão”. É desse sentimento que extrai uma “lógica íntima, interior, consequente consigo própria, fiel a si mesma” (“Arte Poética III”).

2. E todavia, é possível vislumbrar em alguns textos de Sophia (nas artes poéticas, na sua correspondência, nas entrevistas, em algumas alusões dos seus poemas ou das suas traduções…) uma explicação mais demorada desse pensamento “poético” que se tem por origem do pensamento, o pensamento nascido das sensações. A sua obra não se deseja isenta de circunstância: parte do sensível. Mas reflete também sobre esse sensível. Chega a evocar a sua simpatia pela filosofia de Heidegger e a desconfiança que igualmente sente pelo pensamento filosófico que desvalorize o sensível.

A civilização ocidental traiu a imanência. Talvez essa traição tenha começado em Sócrates e Platão que a beberam na “Sabedoria da Ásia”. O ser deixou de estar na physis passou a estar no logos (carta a Jorge de Sena, em 18/11/1972).

Porém, a obra de Sophia de Mello Breyner está muito longe de invalidar conceitos abstratos: o conceito de Poesia é nela quase ontológico. “Encontrei a poesia antes de saber que havia literatura. Pensava que os poemas não eram escritos por ninguém, que existiam em si mesmos, por si mesmos, que eram como um elemento do natural, que estavam suspensos, imanentes” (“Arte Poética IV”). Em cartas a Jorge de Sena, desenvolve um discurso crítico, nomeadamente sobre as narrativas: “Em verso eu não preciso de compreender, mas em prosa preciso” (em carta de 20/3/1961).

3. Não há na obra de Sophia indiferença ao imediato. Mas também não há cedências. A expressão do compromisso social da arte passa certamente pelas “palavras ditas em 11 de Julho de 1964 no almoço promovido pela Sociedade Portuguesa de escritores por ocasião da entrega do Grande Prémio da Poesia atribuído a Livro Sexto”, em claro contexto de resistência à Ditadura salazarista. Mas se Sophia começa por dizer que o artista “não é, e nunca foi, um homem isolado que vive no alto duma torre de marfim”, logo explicita que “mesmo aquele que mais se coloca à margem da convivência, influenciará necessariamente, através da sua obra, a vida e o destino dos outros”. No final, como síntese, parece falar de si: “Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas a obra do artista vem dizer-nos isto: Que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade de ser”.

Ina Gouveia

4. O que há afinal sob um nome como “Poesia”? A Sophia parece estranha uma Poesia que pudesse ser definida pela predominância de uma função poética sobre funções do pensamento julgadas autónomas. Não lhe interessa a erudição, a busca de mais informação: “[…] perco-me um pouco na erudição. Rigorosamente eu só procuro a ‘Sophia’, isto é, conhecimento que é com-nascimento” (carta a Jorge de Sena, 11/1964). Também não se limita a uma Estética, que busque o efeito do belo.

Pois a poesia é a minha explicação como universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta. […] [E] Se um poeta diz  “obscuro”,  “amplo”,  “barco”, “pedra” é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade (“Arte Poética II”).

Quando se diz que as palavras não foram escolhidas esteticamente pela sua beleza, colocam-se em causa noções mais canónicas do que sejam a Estética ou a Beleza. Mas não podemos deixar passar em branco esta pertinência: trata-se de uma escolha em diálogo com a realidade de que a beleza comum não é sinónima: a Poesia é aqui definida como “obstinado rigor”, em termos muitos semelhantes, aliás, àqueles que Ruy Cinatti usava, ao falar da interse ção entre Poesia e Ciência.

5. A mesma questão se poderia fazer agora sobre a Filosofia: O que é a Filosofia? Jean Pierre Faye, para responder a esta questão começa por perguntar o que é um sujeito pensante? Ser que se concebe linha do horizonte, fronteira transponível, ente que respira. Ao respirar, tomando consciência do ar que inspira e expira, o sujeito é então capaz de viver nessa fronteira que une a pulsão da vida à pulsão do conhecimento, o sujeito que vive e o sujeito que se apreende como objeto. “O verbo grego que significa o ser, eimi, eu sou, […] significava respirar” (Faye 1999, p. 20). Sophia escreverá sobre semelhante consciência da respiração do sujeito e do mundo, mas atribuindo tal consciência à Poesia: “[julgava] que os poemas […] eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio. Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si” (“Arte poética V”).

6. Radicalmente, isto é, de raiz, a Filosofia e a Arte não se ocupariam sequer da distinção entre o belo e o horrível, ou até do que julgamos verdadeiro ou falso, justo ou injusto. Seriam ambas (antes de tudo o mais) o exercício de uma mesma narrativa que brota do espanto, do estranhamento e da admiração. A sabedoria da Ciência, da Filosofia e da Arte proviriam de um desejo generalizado de vida fecunda e nova, excitado pela possibilidade de descobrir subitamente algo que estava disponível desde sempre (Faye 1999, p. 28). Um espaço penumbroso onde se descobre uma janela e uma maçã vermelha sobre uma mesa (“Arte Poética III”). Sophia reescreve constantemente o Génesis, aquele momento “onde tudo começou intacto no primeiro dia de mim” («Dual»; Delphos, maio de 1970). Logo no primeiro poema do seu primeiro livro de poemas, encontramos uma celebração desse eterno retorno: “Apesar das ruínas e da morte,/ Onde sempre acabou cada ilusão,/ A força dos meus sonhos é tão forte,/ que de tudo renasce a exaltação/ E nunca as minhas mãos ficam vazias” («Poesia»). E se passarmos para a última “Arte Poética” publicada em «O Búzio de Cós», é ainda uma celebração da mesma busca que encontramos: “dar minha voz à veemência das coisas/ E fazer do mundo exterior substância da minha mente/ Como quem devora o coração do leão// Olha fita escuta atenta para a caçada no quarto penumbroso”. Ainda o quarto penumbroso que tem uma janela e uma maçã vermelha por trincar?

Escutar. Ver. Estar atento. Tal a característica maior do “sophos”, daquele que sabe: “ficou em mim a noção de que fazer versos é estar atento e de que o poeta é um escutador” (“Arte Poética IV”). O “philosophos” é talvez já uma elaboração reflexiva do “sophos”: o filósofo busca o saber, “move-se para” mas não o “habita”. A “Sophia” é já uma consciência. E a “Filo-sophia” torna-se a consciência da consciência. Nesta dimensão primeira, é ainda um “narrador de muitas coisas” (nome que Heraclito chama ao que testemunha um saber). Sophia testemunha, mas ainda em contacto com a pele, próxima da nudez das coisas, sensíveis. A nudez é a pele, uma prega, um último véu. Sob esse transparente véu, a metáfora dá-nos a ilusão de um continuum feito de diferentes espaços e diferentes tempos. Talvez esse continuum se confunda com a eternidade. A casa dos avós de Sophia, no Campo Alegre, tem o mesmo vermelho dos palácios de Creta: nela vive ainda hoje um Minotauro. “Este búzio não o encontrei eu própria numa praia/ […] Comprei-o em Cós numa venda junto ao cais/ rente aos mastros baloiçantes dos navios”. É ele todavia que lhe permite, e ainda a nós nos permite, conhecer “o cântico da longa vasta praia/ Atlântica e sagrada/ Onde para sempre minha alma foi criada”. O leitor olha agora para a ânfora que nunca comprou numa loja de Lagos: “quando a encher de água” ela lhe dará de beber. Mas ainda agora ela nos dá de beber. “Paz e alegria, deslumbramento de estar no mundo, religação” (“Arte Poética I”).

“Belas possibilidades de vida”, poderia comentar Nietzsche.

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