Sophia de Mello Breyner Andresen: Poesia em si, Poesia e Poema

Sophia de Mello Breyner Andresen: Poesia em si, Poesia e Poema

29 Outubro 2019

Escrito por LUÍS LÓIA

O amor positivo da vida
busca a inteireza.

Sophia de Mello Breyner Andresen1

É a poesia que nos implica, que nos faz ser no Estar e nos faz estar no Ser. É a poesia que torna inteiro o nosso modo de habitar a terra e, porque é a mais profunda implicação do Homem no real, a poesia é, necessariamente, mas não só, política e fundamento da política, pois tal como através da poesia se busca o belo e a verdade, se busca a “inteireza”, também através dela se busca a justiça.

Se essa é a condição própria do homem social, do cidadão que não se deve eximir de cuidar da sua cidade, pois isso é cuidar da sua natureza, então o compromisso, a luta, o projeto, fazem também parte da poesia do poeta. De facto, Sophia foi uma poetisa socialmente comprometida e, em determinados momentos, politicamente empenhada. Embora consideremos que a sua ação política fosse mais marcada pelos ditames do tempo e das ocorrências circunstancializadas, em particular imediatamente antes e durante o 25 de abril, nunca a preocupação e intervenção cívica lhe abandonou o espírito. A sensibilidade ecológica, a preocupação com o urbanismo, a comunhão e o respeito com a natureza foram sempre motivos que encontrou para afirmar uma vida integral e, no seu entender, primordial entre as criaturas.

Esta foi sua empresa: reencontrar o limpo
Do dia primordial. Reencontrar a inteireza
Reencontrar o acordo livre e justo
E recomeçar cada coisa a partir do princípio
Em sua empresa falharam e o relato
De sua errância erros e derrotas
De seus desencontros e desencontradas lutas
É moroso e confuso
Porém restam
Do quebrado projecto de sua empresa em ruína
Canto e pranto clamor palavras harpas
Que de geração em geração ecoam
Em contínua memória de um projecto
Que sem cessar de novo tentaremos2

E porque busca a inteireza, por ela se intenta o fundamento, a liberdade primordial, ou a justiça primordial, não a dos homens, mas a do Homem em sua natureza, em sua essência. Aí se encontra a liberdade primordial e a justiça primordial em unidade fundamental e fundante que se opõe, noutros registos que não os verdadeiramente poéticos, ao que é separado, cindido, fragmentado, contingente, diabólico.

Separados fomos por citaras e canto
E pelos longos poemas silabados
E entre nós dois deitaram-se paisagens
Que nos mantinham imóveis e distantes
Embora o fogo secreto das palavras
E a veemência do canto e das imagens
Embora a paixão das noites consteladas
E o nevoeiro tocando a nossa face
Separados fomos por cítaras e canto
Como outros por prisões ou por espadas
3

Toda a poesia, bem como toda a arte, não é realmente verdadeira se se apresentar de modo fragmentário, se não intentar o todo, se não procurar remediar essa queda ou cisão promovida pela concretude e objetividade onde o homem, muitas vezes gosta de se situar, construir e afirmar. Neste sentido, a tarefa da poesia, ou do poeta, é emergir e fazer emergir o Homem dessa cisão, dessa divisão, denunciando a cultura que, podendo não o querer de forma explícita, acaba por nos separar dos outros, do mundo e, até mesmo, de nós próprios, isto é, da nossa essência, da nossa verdadeira e integral vida.

A tarefa, dizíamos, é para Sophia a incessante busca da unidade que é divina; a interminável procura da coerência ou, mais do que isso, da identificação entre o ser e o estar. Isso é o que entende por Inteireza.

Exilámos os deuses e fomos
Exilados da nossa inteireza4

Conforme Sophia afirma, “É a poesia que desaliena, que funda a desalienação, que estabelece a relação inteira com o homem consigo próprio, com os outros, e com a vida, com o mundo e com as coisas”.5 E se não nos interessa aqui conotar o conceito de alienação com a sua dimensão política ‒ sabendo nós que o tem, pois tratam-se de palavras proferidas em maio de 1975 ‒ sublinhamos, no entanto, esta relação que a poesia estabelece entre o homem e o Ser, entre o homem e aquilo que o fundamenta enquanto Homem, entre aquilo que é e o seu fundamento. Mais: não só estabelece a relação como também funda o Homem no Ser.

Que a arte não se torne para ti a compensação daquilo que não soubeste ser
Que não seja transferência nem refúgio
Nem deixes que o poema te adie ou divida: mas que seja
A verdade do teu inteiro estar terrestre
Então construirás a tua casa na planície costeira
A meia distância entre montanha e mar
Construirás – como se diz – a casa térrea –
Construirás a partir do fundamento6

Pela poesia, o Homem acede àquilo que verdadeiramente é, ao que os outros verdadeiramente são, ao que o Mundo verdadeiramente é. A poesia mostra, desvela o Ser, não um ser particular ou um modo de ser, mas o Todo. Daí que ela seja inspiradora e expiradora, isto é, por ela o Espírito entra em nós e por ela o nosso Espírito se manifesta in spiritus e ex spiritus – eis a missão do verdadeiro poeta.

Cabe ao poeta, pois, não só denunciar esse passado cindido, decaído, separado, apartado da significativa e verdadeira relação, mas também apontar o futuro, profeticamente se necessário, mostrando-o em união, em comunhão integral, fundamental.

É neste sentido que Sophia entende a primordialidade da poesia face a todas as outras manifestações humanas, não só na relação do homem com os outros homens, mas também na relação do homem com a natureza e até na relação do homem com o sagrado. Se a expressão poética é a condição apropriada para o dizer da liberdade, para o dizer da justiça, também o é para o dizer da praia e do rio, das montanhas e dos vales, das árvores e das flores, de Deus e dos deuses. Aí a verdadeira poesia mostra a verdadeira beleza, essa beleza que não está no objeto apreciado, nem no sujeito apreciador, mas que surge da sua relação que de outro modo não poderia ser dita ou compreendida; aí a verdadeira poesia desvela a perfeição das coisas que, de outro modo, só aparecem ou, melhor dizendo, só são compreendidas no sentido em que apenas aparentam ser aquilo que verdadeiramente são.

Em nós, nos outros e na natureza, se manifesta de modo misterioso o divino e é pela poesia que essa manifestação se pode tornar evidente, não numa transfiguração da realidade, antes pelo contrário, figurando a realidade como ela é. Não mostrando uma coisa que assinala uma outra, como sendo seu sinal, mas revelando o que é como é. Não descrevendo as águas de um rio que corre, mas mostrando o que é um rio e um rio, por exemplo, só pode ser aquilo que está entre o que é e o que eu sinto ser, de outro modo será um rio que corre sem sentido. Ora, o sentido para que corre o rio é diferente do sentido do rio e só o último é que mostra o que o rio é, pois que esse sentido lhe é dado por meio da criação e só a poesia é que consegue se aproximar da compreensão do que seja esse momento divino.

E digo aproximar-se dessa compreensão porque da criação divina que em cada coisa se manifesta só podemos afirmar, mesmo em dizer poético, que é mistério. Com efeito, para Sophia, a poesia é o intentar do mistério daquela “inteireza” de que falámos.

É talvez pelo afirmado que Sophia seja considerada a mais grega das poetisas portuguesas. A inteireza que busca encontra-a no mistério e dos mistérios mostram-nos os mitos, os primeiros mitos, os mitos cretenses e depois gregos.

Em Creta
Onde o Minotauro reina
Banhei-me no mar
Há uma rápida dança que se dança em frente de um toiro
Na antiquíssima juventude do dia
Nenhuma droga me embriagou me escondeu me protegeu
Só bebi retsina tendo derramado na terra a parte que pertence
[aos deuses
De Creta
Enfeitei-me de flores e mastiguei o amargo vivo das ervas
Para inteiramente acordada comungar a terra
De Creta
Beijei o chão como Ulisses
Caminhei na luz nua
Devastada era eu própria como a cidade em ruína
Que ninguém reconstruiu
Mas no sol dos meus pátios vazios
A fúria reina intacta
E penetra comigo no interior do mar
Porque pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos
[abertos
E reconhecem o abismo pedra a pedra anémona a anémona
[flor a flor7

Podemos afirmar que a procura da compreensão do mistério a faz nos tempos mais recônditos onde ele se manifesta, precisamente na Creta Minoica onde se prestavam cultos à Deusa-Mãe, divindade da fertilidade da terra e, portanto, da morte e ressurreição, e que tinha como acólito o Touro que, em outras narrativas e testemunhos, se identifica com Dioniso-Zagreu. O que mito aí revela e se celebrava ritualmente é, precisamente, a comunhão entre a divindade e os homens no palco da natureza; celebração inebriada, ex-tética, em dança de vigilância extasiada, que permitia o acesso à Origem, à contemplação da verdade integral e eterna. Aí se dançava e se atualizava dramaticamente o rito que não podia ser dito, pois que palavras não podem dizer o indizível. Falavam, então, pela Deusa-Mãe, os gestos, falavam as pedras, as conchas, os mares, as árvores, as flores, os animais, os deuses e falavam aos homens palavras que não podiam nem conseguiam reproduzir sem que o seu sentido ou verdadeiro significado se perdesse.

Como o rumor do mar dentro de um búzio
O divino sussurra no universo
Algo emerge: primordial projecto.8
Joana Rêgo (imagem de capa)

Não podia a palavra humana traduzir a Verdade – ἀλήθεια –; verdade que se confunde, que identifica, que instaura, que é, em si mesma, Realidade e que, como tal, para o Homem, não pode ser menos do que Mistério. E é esse mistério primordial que a poesia, não revela, mas desvela. Esse mistério da Origem que reúne princípio e fim, que se mostra na verdade e na eternidade que está para além do ciclo da vida e a morte e que, portanto, suplanta a própria historicidade.

Este Mistério da Origem, constituindo-se mito e celebrado ritualmente, faz confluir o fim com o princípio, permite fazer morrer a nossa condição mundana, separada, apartada, cindida, exilada – nas palavras de Sophia – e renascer em integridade primordial, em Inteireza. Só que o acesso a esse Mistério só pode ser feito mediante uma iniciação que exige a guarda do silêncio do que se virá a viver. À semelhança dos Mistérios de Elêusis, que em Creta têm a sua origem, o que os iniciados ou participantes nos ritos minoicos experienciam não é o escutar da palavra, mas sim o dançar. E é um dançar que, em si, para Sophia, é poesia. Segundo afirma: “A palavra poesia é usada em três sentidos: Chamamos poesia à Poesia em si, independentemente do homem. Chamamos poesia à relação do homem com a Poesia do Universo. E chamamos poesia à linguagem da poesia, isto é, ao poema”.9 Clarificando que, no seu primeiro sentido “a Poesia é a própria existência das coisas em si, como realidade inteira, independente daquele que a conhece”.10

É a esta Poesia que os poemas de Sophia, bem ao modo grego, almejam. É essa a relação que enquanto poetisa quer ter com o Universo. É a esse regresso à Origem primeira que quer regressar, pois aí vê o verdadeiro projeto do Homem – um regresso à inocência para que seja possível um ressurgimento integral.

Era um dos palácios do Minotauro
– o da minha infância para mim o primeiro
Ali o tumulto cego confundia
O escuro da noite e o brilho do dia
Ali era a fúria o clamor o não-dito
Ali o confuso onde tudo irrompia
Ali era o Kaos onde tudo nascia11

O poeta é, assim, um mediador entre a Poesia em si e o poema e essa mediação faz-se da relação que estabelece com as coisas, com o mundo, mesmo que seja o mundo físico. Aí exige-se a solidão, do poeta e das coisas, a solidão da sua relação, para que o poeta os conceba naquilo que são, sem relação ao que poderiam ter sido ou ao que poderão vir a ser. Essa solidão, apreciada por Sophia, não é apenas uma solidão física ou espacial, é uma solidão no tempo, na tentativa de o parar e conceber o instante em que o Ser se mostra na coisa revelando aquilo que ele é. Por isso, a poesia, como Poesia do Universo, onde se dá a relação do homem com o poemar e ainda não com o poema, é, ao mesmo tempo, encontro e conhecimento dado na união vivente e amorosa do homem com a coisa, procurando nela se fundir e confundir, mas, como vimos, em encontro, união ou fusão, não é, não pode ser, total ou absoluta. Quanto muito é tensão unitiva, é movimento ou anseio para, dinamismo volitivo em ordem ao mistério que, e sempre, permanece misterioso. A luz ou anseio de iluminação, de clarividência que percorre a sua obra manifesta o que acabamos de afirmar e sustenta-se estruturalmente como esteio do seu pensar e poetar.

Como escreve: “A união com a Poesia (…) é a finalidade do poeta. Mas por mais real que seja o encontro, nunca é total; por mais funda que seja a união, nunca é absoluta. (…) Há sempre uma lacuna (…) nesta distância que o separa dos deuses.”12

A frustração desse encontro, pleno e absoluto, torna o poeta um fingidor, sem poder ser mais do que um fingidor porque sabe que só o poema, e não a Poesia, pode ser a melhor expressão ou a mediação entre o que almeja mas não alcança. Será, então, o poema o modo mais adequado, não para dizer, mas para que possa ser dito através dele o que ele não diz. É apenas neste sentido medianeiro que o poema tem o seu verdadeiro valor e revela o seu sentido profundo. É, neste sentido e deste modo, como toda a arte e mesmo a dança, ato criativo; é obra humana que procura mimetizar algo que não é humano, pois que a Poesia em si é independente do homem e a poesia é apenas a relação do homem com essa Poesia do Universo primeira. Se a primeira é a Realidade; a segunda será a Vivência, a relação; sendo a terceira criação humana, demasiado humana, dessa relação com o que é. Como criação humana, torna-se uma coisa entre todas as outras coisas que existem no mundo e, como coisa, também ela exige solidão para ser criada e contemplada, para ser expirada e inspirada, para transformar aquilo que é naquilo que poderia ser; quer seja da coisa que é poemada, quer seja do poeta que se poematiza, acrescentando algo que pode estar ou que poderia lá estar, mas que, manifestamente, não está. Conforme afirma: “Não podendo atingir a união absoluta com a Realidade, o poeta faz o poema onde o seu ser e a Realidade estão indissoluvelmente unidos”.13

Não por acaso, os primeiros relatos da origem separada, cindida, separada, exilada, são poemas e na Grécia patenteiam-se em «Odisseia» e «Teogonia»; relatos teogónicos, antropogónicos e cosmogónicos, de medianeira existência entre divindades e os homens no mundo.

Essa plenitude primordial, a essa Poesia em si, pretende o poema desvelar, quer o poeta ascender, quer o homem ressurgir. Fica o apelo:

Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos
E em Delphos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta
Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta
Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta
Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta14

Notas:
  1. Andresen, S. M. B. (1977). O nome das coisas. Lisboa: Edições Salamandra, 3.ª ed., p. 75 [texto lido no I Congresso de Escritores Portugueses, datado de 10 de maio de 1975].
  2. Andresen, “Projecto”, op. cit., p. 53.
  3. Andresen, “Separados Fomos”, op. cit., p. 45.
  4. Andresen, “Exílio”, op. cit., p. 49.
  5. Idem, p. 76.
  6. Andresen, “A Casa Térrea”, op. cit., p. 35.
  7. Andresen, S. M. B. (2006). “O Minotauro”, in Mar. Lisboa: Editorial Caminho, 6.ªed., p. 117.
  8. Andresen, “Como o Rumor”, in O nome das coisas, op. cit. p. 17.
  9. Andresen, S. M. B. (1960). “Poesia e Realidade”, in Colóquio – Revista de Artes e letras, n.º 8. Disponível em: https://www.snpcultura.org/id_poesia_e_realidade.html
  10. Ibidem.
  11. Andresen, “O Palácio”, in O nome das coisas, op. cit., p. 20.
  12. Andresen, “Poesia e Realidade”. Disponível em: https://www.snpcultura.org/id_poesia_e_realidade.html
  13. Ibidem.
  14. Andresen, S. M. B. (2006). “Ressurgiremos”, in Livro Sexto. Lisboa: Editorial Caminho, 8.ª ed., p. 25.
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