A Poética de Sophia à luz do Pensamento de Maria Zambrano

A Poética de Sophia à luz do Pensamento de Maria Zambrano

29  Outubro 2019

Escrito por TIAGO CABRAL

A necessidade de dar resposta ao diálogo provocado pela obscuridade dá-se numa solidão, não tem explicação e percebemos que não é universal. “De facto, um homem que precisa de poesia precisa dela, não para ornamentar a sua vida, mas sim para viver”. Ter o sentido da poesia é algo que só alguns têm, é uma água que só alguns reconhecem e precisam de beber. 

1. A maravilhosa «Evocação de Sophia» de Alberto Vaz da Silva (2009) abre com três epígrafes: a primeira, de Louis-Claude de Saint-Martin – “Il y a des êtres à travers qui Dieu m’a aimé” –, mostra a amizade como um dom divino, precioso, como se um amigo fosse um enviado de Deus especialmente a nós dirigido. Assim se terá sentido Alberto Vaz da Silva relativamente a Sophia. Depois, a de S. João da Cruz – “Que bien sé yo la fonte que mana y corre, aunque es de noche”. E, por fim, versos de Sophia, do livro «Ilhas» – “Tão nobre espírito/ em tão estreita regra/ Tão vasta liberdade em tão estreita/ Regra” – escritos em memória do Padre Manuel Antunes. As límpidas e enigmáticas palavras do poeta místico espanhol, que alcançou insuspeita das alturas poéticas em busca da “fonte que mana y corre”, sugerem uma relação de parentesco com Sophia. Seria S. João da Cruz um patrono secreto desta poeta, que assumiu para si mesma um destino de uma “tão vasta liberdade em tão estreita/ Regra”? De poucos poetas em português podemos dizer que encarnaram esse destino de modo tão exemplar como Sophia. Se há um desafio que a obra de Sophia nos põe é o de vivermos voltados para a “fonte que mana y corre”, procurando não perder a orientação nesse sentido, aconteça o que acontecer. Não será esse o ofício do poeta, do pensador, do artista? Mas hoje tornou-se difícil entender a razão do poético como uma razão que não precisa de justificações, como uma razão que ocupe um lugar necessário no mundo humano.

A obra de Maria Zambrano, contemporânea da obra de Sophia, debruça-se sobre a origem do poético com singular agudeza e, dada a afinidade entre ambas, recorremos ao pensamento de Zambrano para melhor compreender a «Poética» de Sophia. Sem deixar de apontar sempre o horizonte original que a Grécia Clássica representou, Zambrano seguiu de perto o fazer e refazer da actividade poética ao longo dos tempos, como actividade intimamente relacionada com o sagrado e, por isso, irmã do pensamento filosófico. Esse momento espiritual grego arrebatou com a mesma intensidade tanto a poeta Sophia como a filósofa Maria. Se a poesia de Sophia não dispensa um olhar filosófico sobre o mundo, a filosofia de Zambrano alimenta-se constantemente da actividade poética. Foi pela original luminosidade grega que ambas se sentiram atraídas, pela força dessa luminosidade na luta contra a treva, contra todas as trevas. Ou, como escreveu Sophia: “A claridade grega é uma claridade que reconhece a treva e a enfrenta. A claridade daqueles que interrogam a esfinge e que penetram no labirinto para combater a escuridão e a violência do toiro” (Andresen, 1992, p. 23).

2. Da imensa obra de Maria Zambrano, desse contínuo discorrer sobre o pensamento e sobre o acto poético, desprende-se uma verdade central: a de que a vida humana está condenada ao padecimento do divino. O divino é uma marca, uma vocação, que o humano transporta e da qual não poderá nunca ver-se livre. Para Maria Zambrano, o pensamento filosófico parte como uma luz desde o fundo obscuro da consciência, para vir iluminar a condição deste ser paciente, a condição humana. No mais importante dos seus livros, cujo título é precisamente «O Homem e o Divino», há um capítulo essencial onde a pensadora põe em evidência a luta decisiva que se deu entre filosofia e poesia no seu nascimento na Grécia: “A disputa entre a filosofia e a poesia sobre os deuses”. No obscuro começo, “os deuses, conforme Ortega dizia, apresentavam um vazio de ser que provocou a nostalgia de tudo o que se iria encontrar na ideia de ser” (Zambrano, 1995, p. 59). O confronto humano com esse domínio sagrado dá-se primeiro com a poesia:

A formação dos deuses, a sua revelação pela poesia, foi indispensável, porque foi ela, a poesia, que primeiro enfrentou esse mundo oculto do sagrado. E assim, em parte, a insuficiência dos deuses, resultante da acção poética, deu lugar à atitude filosófica. Mas, por outro lado, vemos que na atitude que a actividade poética supõe, se encontra já o antecedente necessário da atitude que dará origem à filosofia. Como sempre que de uma actividade humana nasce outra diferente, e até contrária, não é só da sua limitação, do que não chegou a alcançar que ela nasce, mas também daquilo que chegou a ser; do seu aspecto negativo unido ao positivo.

Ao procurar iluminar, neste momento original, a resposta humana ao sagrado, Zambrano fá-lo sabendo que aqui se joga a relação do humano com o sagrado, no seu primeiro passo, o nascimento de um novo humano. Esse passo foi dado pela poesia, abrindo caminho a uma resposta mais tardia, a da filosofia.

E assim, a filosofia inicia-se do modo mais antipoético, por uma pergunta. A poesia, essa começa sempre por uma resposta a uma pergunta não formulada. Interrogar-se é próprio do homem, o sinal de que chegou a um momento em que vai separar-se do que o rodeia, qualquer coisa como a ruptura de um amor, como o nascimento. (Zambrano, 1995, p. 60)

Coincidirá o lugar desse nascimento com este lugar descrito no úlitmo poema do primeiro livro de Sophia, «Poesia»?

No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio.
(Andresen, 2011, p. 71)

Temos dois momentos, duas solidões: a do poeta, que na sua solidão perante o sagrado responde criando os deuses, verdadeira revelação poética; e a solidão filosófica, de que nasce a pergunta, a pergunta que pergunta pelas coisas, que quer saber o que elas são.

Solidão um tanto especial; pois mais do que haver solidão há solidões, diferentes. A solidão em que deve ter nascido a pergunta da filosofia parece ser a que surge quando se perderam as imagens e os fantasmas; quando uma imagem com que se viveu na intimidade se desvanece. (Zambrano, 1995, p. 61)

Porque a alma se esvaziou, “perdeu o contacto com as suas imagens familiares e fica como que adormecida sob a actividade da mente que encontra pela primeira vez a sua presa, o seu alimento adequado”. E assim começa um novo momento em que se dá a “inauguração do grande luxo de se interrogar sobre o que até há pouco tempo era inquestionável por não ser aparente, por estar escondido sob as imagens, sob as fábulas”. Ora, sem a actividade poética, era como se o logos não pudesse entrar em actividade, ou seja, nada poderia ser concebido. É o acto poético que surge em primeiro lugar porque é essencialmente resposta, porque ousa rasgar o fundo obscuro do sagrado com a luminosidade da palavra. Primeiro chega o poeta, depois vem o filosófo.

Mas, em compensação destas razões das suas razões o poeta oferecerá o seu próprio ser, suporte do que não consente ser dito, de tudo o que se esconde no silêncio; a palavra da poesia estremecerá sempre sobre o silêncio e só a órbita de um ritmo a poderá sustentar, porque é a música, mais que o logos, que vence o silêncio. E a palavra mais ou menos desprendida do silêncio estará contida numa música. (Zambrano, 1995, p. 62)

O poeta, que arranca a palavra ao silêncio e a põe em música no mundo, dá, com o seu ser, uma razão poética à vida, apontando um caminho.

O poeta aceitará e pretenderá mesmo outro género de responsabilidade que aquela que se oferece a partir da consciência e da claridade das razões; essa responsabilidade sugerida, mais do que na palavra, no gesto da mão que indica uma direcção. Poesia e filosofia serão desde o princípio duas espécies de caminhos que em instantes privilegiados se fundem num só.
Silas Baisch

Zambrano considera que, na Grécia, a contenda teve como vencedor o filósofo. O poeta falava em “nome de uns deuses que não o sustinham” e se o filósofo venceu foi “por causa do seu retrocesso à ignorância”. Ambos pretendiam falar em nome da divindade, mas só a atitude de regresso à ignorância da filosofia permitiu:

[…] fixar o seu olhar numa realidade primordial, original; sagrada, porque oculta e ambígua, porque quase não nomeável. O apeiron, de onde todas as coisas vêm, segundo Anaximandro, fundo obscuro onde a injustiça do ser, de ser algo, se apoiará. Descoberta verdadeira desta ignorância da atitude filosófica. Mas, é preciso ver que se essa ignorância é uma descoberta da atitude filosófica, é também aquilo face ao qual o poeta treme, silencia e fala. (Zambrano, 1995, p. 64)

Apesar de tudo, nascera algo de novo, único. Do seio desta disputa irrompeu uma nova postura da qual o homem não mais poderia prescindir:

E o problema que na Grécia se colocou foi a questão bem decisiva de se seria o poeta ou o filósofo a mandar, dado que não havia realmente sacerdote, profeta encarregado disso, devido à falta de um deus revelado. A contenda tinha de acontecer em termos já meramente humanos, contenda original que assinala a origem do humanismo, desse humanismo que nem durante a cristandade pôde ser silenciado em momento algum e que, diríamos, volta actualmente a apresentar-se como nos dias da Grécia em toda a sua gravidade. (Zambrano, 1995, p. 65)

A origem do humanismo de que nos dá conta Zambrano aponta para uma nova exigência. O humanismo vai exigir a consciência do seu nascimento como a resposta humana perante o sagrado. Doravante será humanista aquele que viver consciente dessa nova exigência.

3. Em «Poesia e Realidade», Sophia esboça o modo como entende ser possível dar poeticamente resposta a essa exigência. Este é um texto que, sendo uma «Poética» se apresenta também como fruto maturado de uma reflexão sobre a origem do acto poético, uma concepção filosófica do acto poético. Diz assim a poeta:

Eu sei que nunca se dirá tudo o que a poesia é. Nenhuma análise, nenhuma teoria explicará o que a torna tão necessária a alguns homens e o que a torna tão indiferente a outros. Aquele que tem o sentido da poesia reconhece-a imediatamente, como aquele que tem sede reconhece a água. Sem necessidade de análise, de conceitos ou de teorias. Mas aquele que não tem o sentido da poesia não reconhece nunca, por maior que seja a sua cultura e por mais vasta que seja a sua informação. Nenhum sistema de filosofia, nenhum tratado de estética pode ensinar a distinguir um poema verdadeiro dum falso poema.

A necessidade de dar resposta ao diálogo provocado pela obscuridade dá-se numa solidão, não tem explicação e percebemos que não é universal. “De facto, um homem que precisa de poesia precisa dela, não para ornamentar a sua vida, mas sim para viver”. Ter o sentido da poesia é algo que só alguns têm, é uma água que só alguns reconhecem e precisam de beber. Um pouco adiante a poeta distingue três sentidos para a palavra poesia:

A palavra poesia é usada em três sentidos: Chamamos poesia à Poesia em si, independente do homem. Chamamos poesia à relação do homem com a Poesia do Universo. E chamamos poesia à linguagem da poesia, isto é, ao poema. Para tornar claro o que vou dizer, chamarei Poesia à poesia em si, poesia à relação do homem com a Poesia e poema à linguagem da poesia.

Ou seja, Poesia, com maiúscula, é um Algo maior que o homem, que está para além dele, o que em filosofia se costuma designar por Metafísica. Mas é através da poesia, no segundo sentido atribuído por Sophia, que o homem entra em relação com esse Algo, a Poesia.

Pois a Poesia é a própria existência das coisas em si, como realidade inteira, independente daquele que a conhece. Porque não somos nós que criamos o mundo. Se o poeta procura tanto a solidão, não é só para fugir ao rumor e à agitação, mas também para ver as coisas, quando elas estão sozinhas. A emoção que sentimos ao entrar numa casa deserta ou num jardim abandonado, é a emoção da vermos como as coisas sem nós existem, na sua própria realidade, em si. É com esse em si que o poeta quer entrar em relação.

A poesia foi para Sophia esse modo de viver desperto e vigilante, exigentíssimo modo de viver atento ao Real, de não perder nunca o contacto com a realidade das coisas.

A poesia é a relação do homem com a Poesia. Ou melhor: a poesia é a relação pura do homem com as coisas. Isto é: uma relação do homem com a realidade, tomando-a na sua pura existência. O poeta é aquele que vive com as coisas, que está atento ao Real, que sabe que as coisas existem.

E dados estes passos na clarificação do papel do poeta perante o Real, a poeta vai assumir a radical diferença que existe entre ser e conhecer:

Esta relação com a realidade é essencialmente encontro e não conhecimento. A atitude do homem de ciência perante a Realidade é igual à atitude dum anatomista perante um corpo morto que ele estuda e analisa. A atitude do poeta perante a Realidade é igual à atitude do amante perante um corpo vivo com o qual ele se encontra, vive, se une e se confunde. A poesia só é conhecimento por consequência, isto é, na medida em que de todo o encontro nasce necessariamente conhecimento. O poeta não tem curiosidade do Real, mas sim necessidade do Real. A verdadeira ânsia dos poetas é uma ânsia de fusão e de unificação com as coisas. […] Mas por mais real que seja o encontro, nunca é total; por mais funda que seja a união, nunca é absoluta. A relação do homem com as coisas nunca é uma túnica sem costura. Há sempre uma lacuna. Essa lacuna o poeta leva-a como uma ferida na sua carne ou, como diz Hölderlin, como um espinho no seu peito.

É desta impossibilidade de fusão total com o Real que nasce o poema. O poema, em si, não é mais do que a ponte entre o poeta e o Real, ou melhor, os restos que ficam dessa ponte que o poeta lança entre si e o Real.

A Poesia e a poesia não são criação. São realidade e vivência. Porém o poema é criação, é um objecto a mais no mundo, uma realidade entre as realidades. Mas a finalidade do poeta não é acrescentar objectos à natureza. O mundo não precisa nem de retratos que o repitam nem de ornamentos que o enfeitem. O poema aparece, porque é necessário à existência do poeta.

A obra do poeta nasce de uma humildade suprema, da consciência de impotência na fusão com a realidade. Os poemas são o resto que fica desse amor, como despojos de um acto amoroso cuja consumação não poderá dar-se nunca:

O poema aparece como um medianeiro. Aparece ao lado da lacuna, que impede a união absoluta com a Poesia. É uma forma de tornar total o que estava incompleto. Não podendo fundir totalmente a sua vida com a existência das coisas, o poeta cria um objecto em que as coisas lhe aparecem transformadas em existência sua. […] Não podendo atingir a união absoluta com a Realidade, o poeta faz o poema onde o seu ser e a Realidade estão indissoluvelmente unidos. Por isso o poema é o selo da aliança do homem com as coisas.

E, no limiar da fusão com a realidade, Sophia, verdadeira poeta que procurou sem descanso a “fonte que mana y corre”, pode testemunhar com S. João da Cruz:

Mi alma se a empleado,
y todo mi caudal, en su servicio;
ya no guardo ganado,
ni ya tengo otro officio,
que ya sólo en amar es mi exercicio.
 (S. João da Cruz, Cântico Espiritual)

NOTA: O autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

Bibliografia
Andresen, S. M. B. (1960). “Poesia e Realidade”, in Colóquio – Revista de Artes e Letras, n.º8. Disponível em: <https://www.snpcultura.org/id_poesia_e_realidade.html> [consultado em 19/03/2019].
— (1992). O Nu na Antiguidade Clássica. Lisboa: Editorial Caminho.
— (2011). Obra Poética. Lisboa: Editorial Caminho.
Silva, A. V. (2009). Evocação de Sophia. Lisboa: Assírio e Alvim.
Zambrano, M. (1995). O Homem e o Divino. Lisboa: Relógio D’Água.
— (2000). A Metáfora do Coração e outros escritos. Lisboa: Assírio e Alvim.
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