100 ANOS DE AUSÊNCIA DE AMADEO DE SOUZA-CARDOSO

Pedro Barros

[…] os meus destinos só estão bem commigo. Ou por elles triumpho
ou por eles sou esmagado”

(Carta de Amadeo para a mãe na véspera da partida para Paris)

Nos cem anos sobre a morte de Amadeo de Souza-Cardoso, impõe-se-nos refletir sobre o que poderemos considerar definitivo na sua vida e obra e, por outro lado, porventura mais subjetivo e redutor, se merecemos o surpreendente legado que nos deixou. Algumas destas questões são de resposta fácil e imediata (poucas), outras suscitam mais perguntas que respostas, dúvidas e necessidades de aprofundamento. Outras deduzem-se. Certo apenas que há muito por fazer.

Parece consensual que a obra de Amadeo passou o teste dos primeiros 100 anos, resistindo aos tempos vários e mostrando condições que justificam e exigem uma abordagem integrada na história da arte e dos movimentos vanguardistas do início do século XX.

Consensual será que sem Lucie Meynardi Pecetto, sua querida e apaixonada companheira de sempre, a obra de Amadeo, provavelmente, não teria chegado aos nossos dias, o que nos onera com uma enorme dívida para com ela por décadas de serviço público a Portugal e à Arte por ter sido guardiã de tão valioso acervo. Bom seria que nos tivesse deixado as suas «Memórias de Uma História de Amor», em tributo e prova do seu amor ao marido e companheiro, como o fez até ao último dos seus dias. Passaríamos a conhecer o que teima em nos escapar por entre os dedos: os tempos de Paris, os dias de Manhufe e as relações familiares, as obras que desapareceram, o período após a morte de Amadeo e as condições do regresso a Paris, as feridas abertas, e o que faltou cumprir numa(s) vida(s) intensa(s) e apaixonada(s).

Consensual é o papel da Fundação Gulbenkian no reagrupamento da obra em Portugal e de um conjunto de homens e mulheres, de Amarante a Lisboa ou Paris, que trabalharam pelo reconhecimento de Amadeo.

Consensual também que o Estado Português, durante 100 anos, se esqueceu que Amadeo existia e que continua sem estratégia.

Em Itália, o Instituto Amedeo Modigliani dedica-se ao estudo, investigação e divulgação da obra de Amedeo Modigliani, contemporâneo de Amadeo de Souza-Cardoso, estando desde 2016 a comemorar o centenário da sua morte que ocorrerá em 2020. Por cá, poderemos continuar com os estafados chavões que vêm sendo repetidos por ocasião de cada nova exposição com as frases de Almada Negreiros ou com os episódios das Exposições no Porto e em Lisboa; ou, com bem mais critério, seguir, por exemplo, o trabalho de muitas décadas que José Augusto França vem dedicando a Amadeo.

Sem ânsia de conhecer antecipadamente o fim e com todo o tempo do mundo, sigo há vários anos o “farol da Bretanha” na certeza que algum dia chegaremos a terra.

Debates vários em Amadeo

Por alturas de 1908, em Paris, inventava-se o futuro numa permanência de revolução em variantes artísticas experimentalistas. Num mundo com fatores de aceleração impossíveis de controlar dentro das regras vigentes, a alegria e a generosidade da juventude empurravam as novas linguagens para fora dos espartilhos da velha arte, na busca de uma nova ordem.

Em Paris, Amadeo cresceu e fez-se acontecer. Transformou-se em Amadeo. E interiorizou a diferença. Em carta ao Tio Francisco, Amadeo fala de forma desafrontada:

Há gente que chama ao meu estado uma pretensão para sair fora do vulgar – que pensem o que queiram, indiferente me é – eu tenho as minhas razões e bastam. Eu sei o que agrada em geral – eu na generalidade desagrado. Até certo ponto não é menos lisonjeiro”.

E continua, “[…] ninguém deixa de fazer uma obra de arte intensa por falta de technica, mas por falta de outra coisa que se chama temperamento.”

Paris é o chão e o céu da revolução em curso, “o ambiente de espírito, aqui mais claro que em todos os países de luz…”. Mas a Amadeo faltam-lhe os matizes das cores alimentadas pelo sol do meio-dia que queima e fortalece, a imensidão dos mares e a geometria dos espaços que lhe moldam o olhar.

«Procession Corpus Christi / Procissão Corpus Christi» — Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918) — 86P34 — © Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa / Museu Calouste Gulbenkian — Coleção Moderna.

Com a alma amarantina esticada até às mãos, numa mão a luz, na outra as asas, Amadeo regressa sempre a Manhufe para (re)fazer o caminho. Do seu castelo, via o mundo e como a relação da luz com as coisas transforma o entendimento que temos das cores.

É por isso que os vermelhos em Amadeo têm a força do sangue impetuoso e fiel, o salto da dança que as suas pernas longas deixam imaginar, a sonoridade dos sinos a repique, plastificada nas opas, bandeiras, e pálio da «Procissão Corpus Christi». Os verdes são brotos tenros, primavera, serra, verdes-viço, verdes-tropicais. E as máscaras somos nós no imaginário da opacidade, a herança ancestral sempre presente. Tudo visto, é a grande festa dos sentidos, a vitória do traço e da cor.

É Amadeo. Intenso, revelado.

Se ele tivesse envelhecido, o seu olhar seria sereno, interrogativo, porque nele haveria ebulição perpétua.

Nas últimas telas de 1917, Amadeo busca fixar o movimento perpétuo, nas suas próprias palavras, “pinto como um animal”, com os resultados que nos entram pelos olhos e nos estarrecem pelo equilíbrio.

O tempo esvaía-se e a epopeia aproximava-se do fim. Irritado, sem poder pintar, agrilhoado em Manhufe pelo eclodir da Guerra, sentia-se limitado na sua liberdade de ir a França e vir a correr, de sujeitar a sua arte à experimentação em movimentos de torna viagem.

Refém num Portugal rural, conservador, da moral e bons costumes e do mofo das sacristias, faltava-lhe a agitação panfletária dos meios artísticos de Paris e a(s) adrenalina(s) da produção artística, ao mesmo tempo que lhe sobravam os “destinos”.

Cem anos sobre a sua morte, é significativo que Amadeo e a sua obra continuem a surpreender-nos e a mostrar-nos os renovados caminhos de todos os tempos. Amadeo, cavalgou de experiência em experiência, ora convergindo, ora a par, ora na frente da inovação da pintura do seu tempo. É por isso que nos impõe tomar essa onda gigante, seguindo os seus “galgos”, os seus “príncipes e a matilha”, para abraçar o que nos legou e responder, uma e outra vez, se temos merecido a sua obra, todo um museu onde as cores oscilam ao ritmo das estações interiores. Amadeo dizia “tenho mais fases que a lua”. E a sua vida, não tivesse ela sido curta, e por isso, trágica, nos faria ainda uma outra obra.

Órfãos de “Amadeo, o Velho”, amemos “Amadeo, o Jovem”, determinado e rebelde, e a beleza incontornável da sua obra.

Bibliografia

Belém, M. (2009). Fotobiografias do Século XX – Amadeo de Souza Cardoso. Lisboa: Temas e Debates.

França, J. A. (1972). Amadeo de Souza-Cardoso. Lisboa: Editorial Inquérito.

—- (2011). Seis Pintores – Rafael, Malhoa, Columbano, Amadeo, Almada, Pedro. Lisboa: INCM.

Fundação Calouste Gulbenkian (ed.). (2007). Amadeo de Souza Cardoso: Fotobiografia (Catálogo Raisonné). Lisboa: Assírio & Alvim.

Macedo, D. (1959). Amadeo: Modigliani e de Souza-Cardoso. Lisboa: Edições Panorama.

Pamplona, F. (1983). Chave da Pintura de Amadeo. Lisboa: Guimarães & Cª, Editores.